Verdades sobre a Europa

Crise pode fazer avançar mais o processo de integração, desde que os líderes europeus saibam o sentido da história do bloco

É COLUNISTA, ROGER , COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER , COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h04

Uma vida sem reflexão não merece ser vivida, disse Sócrates. Pronunciada num teatro de verão ao ar livre em Creta, com a brisa soprando entre as oliveiras, essa frase é fascinante - talvez porque esteja claro que tomamos decisões ruins em nossas vidas porque não nos deixamos influenciar por esse conceito.

Nos últimos três anos, desde que a Grécia acionou o botão do pânico, as dificuldades da Europa têm dado lugar a muita reflexão, com resultados inconclusivos. Como Woody Allen observou: "E se a vida após uma reflexão não for mais do que um calhambeque?"

A ideia de que a União Europeia, formada por 28 nações, com a adesão da Croácia esta semana, e especialmente com sua zona do euro de 17 nações, é um calhambeque nas últimas, é muito popular hoje.

A crise econômica, que teve início na Grécia, no momento está controlada, mas grande parte da Europa, incluindo a França, está em recessão. As questões envolvendo o futuro da Europa e sua moeda comum não foram resolvidas.

A união, que foi o milagre europeu da segunda metade do século 20, representa hoje o desconforto do século 21. No entanto, podemos contra-argumentar, afirmando que a agonia do euro acabará por ilustrar uma tese de Jean Monnet, de que crises são elementos unificadores.

A planejada união bancária europeia, o sistema único de supervisão e a harmonização fiscal serão catalisadores de uma união ainda mais estreita.

Ouvi opiniões tanto a respeito de uma ruptura quanto de um grande avanço da Europa durante uma conferência em Elounda, na Grécia. Mas é inquestionável que a Europa vive uma fase de intranquilidade. França e Alemanha foram os motores da integração. A França forneceu liderança política e a Alemanha, vigor econômico. Isso acabou. O predomínio alemão sobre uma França à deriva é tão evidente que chega a ser desconcertante.

Os franceses não estão mais convencidos de que a UE será a França em grande escala e, por isso, estão indecisos. A Alemanha, insegura quanto ao seu poder em razão da maneira como ela o usou outrora, hesita em assumir aquilo que ela é, ou seja, a nação líder da Europa. E se defronta com o grande temor, especialmente na Grécia, de algum resquício de agressão germânica.

A Grã-Bretanha poderia ter se inserido nesse vazio. Inversamente, ela se afastou. Guiada por um líder conservador, que enfrenta uma cólera generalizada provocada pelas medidas de austeridade, ele aderiu ao grupo dos eurocéticos. Provavelmente, será realizado um referendo sobre a continuidade do país como membro da UE, em 2017.

O problema mais profundo é social. Mercados robustos requerem uma dose igual de ganância e medo. Durante um determinado período, o dinheiro fácil na zona do euro aboliu o fator medo. Os ricos enriqueceram ainda mais. Agora, a ressaca do colapso financeiro de 2008 é muito mais pronunciada do que nos EUA, que reagiram melhor.

Isso foi agravado pela austeridade, exacerbado pelo forte sentimento de injustiça alimentado pelo fato de que em países como a Grécia o crédito não é direcionado para a economia real. E, sem crédito, não pode haver retomada do crescimento. Ajustes fiscais maciços foram realizados, mas a população não acredita que o pior já passou e responsabiliza a UE.

Para que servem essas medidas antidemocráticas? Não são para a defesa (a paz é algo incontestável), nem para a prosperidade (que definhou) e tampouco para construir os Estados Unidos da Europa (ideia que se tornou ilusória).

Federalização. Ingratidão e memória curta fazem parte da vida. A UE está sofrendo de ambas no momento em que o euro precisa de medidas federais para ser uma moeda confiável. A questão é se essas necessárias medidas serão politicamente sustentáveis uma vez que a direita populista e antieuropeia avança na França com Marine Le Pen e em outros lugares.

O caminho da federalização é possível, mas exigirá novos líderes. O fato é que, nos últimos cinco anos, 80% do crescimento do mundo veio dos países em desenvolvimento. Se uma Europa cuja importância vem diminuindo se desintegrar, isso será ignorar o curso da história.

A Europa necessita de uma visão convincente de seu futuro que possa recuperar o apoio democrático. Precisa crescer. Para isso, tem de ser competitiva. São verdades que precisam ser ditas.

Com a proximidade do 100.º aniversário da 1.ª Guerra, os campos de morte europeus do século 20 desaparecem gradativamente. Sua história e a de como a UE deteve o ciclo de carnificinas e consolidou a liberdade dos ex-Estados comunistas precisam ser recontadas.

O euro é um conceito político que nasceu de uma experiência europeia calamitosa. Explicar isso servirá como lembrança das calamidades. Essa verdade também precisa ser recontada.

Não imagino ninguém melhor para fazer isso do que o vencedor da eleição alemã em setembro. A crise pode ser um elemento aglutinador se os líderes tiverem um sentido da história e uma visão do futuro que se estenda além do amanhã. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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