Veredicto contra Saddam se estende aos EUA, diz especialista

O veredicto pronunciado no domingo contra o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein, que foi condenado à morte, se estende também aos Estados Unidos, afirma o jornalista britânico Robert Fisk, especialista no Oriente Médio, em artigo publicado nesta segunda-feira no jornal The Independent. EUA também deveriam ser condenados pelo "fato de o ex-aliado dos Estados Unidos ter sido condenado agora à morte por crimes de guerra que cometeu quando era o melhor amigo" da superpotência, comenta Fisk. "Os Estados Unidos sabiam de suas atrocidades e inclusive ´forneceram o gás´, junto com os britânicos. No entanto, no domingo declaramos que era, nas palavras da Casa Branca, outro grande dia para o Iraque", acrescenta Fisk. Segundo o especialista, "o veredicto não poderia ser mais justo, nem mais hipócrita". O Ocidente não pode "hoje mencionar (a prisão de) Abu Ghraib ao ter seguido a pista de vergonha do próprio Saddam nessa mesma instituição", afirma, em referência às torturas e maus-tratos cometidos no centro de detenção pelos ocupantes ocidentais. "Nem sequer podemos reivindicar nossa superioridade moral (...), abusamos sexualmente dos presos, matamos alguns deles e assassinamos alguns suspeitos, cometemos algumas violações e invadimos ilegalmente um país, o que custou ao Iraque 600.000 vidas", escreve Fisk. Sobre as vendas de substâncias químicas ao regime iraquiano, Fisk afirma ser "horrível ter de admitir isso, agora que (Saddam) foi condenado à forca por um massacre de xiitas muito localizado em vez de pelo extermínio em massa de curdos", amplamente conhecido - afirma - pelos governos de Washington e Londres. Segundo o especialista britânico, apesar de ser verdade que, em teoria, os curdos poderiam também julgar Saddam e condená-lo à forca, não é provável que britânicos e americanos tolerassem um julgamento no qual teria "que contar como conseguiu seu sujo gás". Um julgamento no qual seria preciso explicar, acrescenta, por que depois dos crimes de guerra contra Halabja, a CIA (agência de inteligência americana) instruiu os diplomatas americanos no Oriente Médio a acusar os iranianos do uso desse gás contra os curdos, no "momento em que Saddam era nosso aliado em vez de nosso criminoso de guerra favorito". Da mesma forma, "o Ocidente calou quando Saddam massacrou 180.000 curdos durante as grandes limpezas étnicas de 1987 e 1988", afirma o especialista.

Agencia Estado,

06 Novembro 2006 | 11h55

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.