'Veremos Raúl e Obama dividir um charuto da paz'

Historiador e analista do Arquivo Nacional de Segurança dos EUA diz que troca de prisioneiros, apoio de cubanos nos EUA e pressão diplomática latino-americana ajudaram reaproximação

Entrevista com

Peter Kornbluh

Cláudia Trevisan - CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2015 | 18h00

Antes de Barack Obama e Raúl Castro anunciarem há um mês a decisão de reatar relações diplomáticas entre os EUA e Cuba, todos os ocupantes da Casa Branca entabularam negociações secretas com os dirigentes da ilha, que ocorriam a despeito das hostilidades mútuas e de sucessivas tentativas americanas de promover uma mudança de regime no país vizinho.

Durante dez anos, Peter Kornbluh e William LeoGrande escavaram documentos e entrevistaram muitos dos atores envolvidos nas conversas, que transcorreram no clima de intriga e suspense dos filmes de espionagem. O resultado é o livro Back Channel to Cuba: The Hidden History of Negotiations between Washington and Havana (Canal Oculto com Cuba: A História Escondida das Negociações entre Washington e Havana).

Em entrevista ao Estado, Kornbluh disse que "Projeto Esquilo" foi o codinome dado às negociações empreendidas por Obama, cujo resultado surpreendeu o mundo no dia 17 de dezembro. Os 18 meses de conversas secretas serão objeto de um capítulo adicional de seu livro, lançado menos de 60 dias antes de Obama e Castro divulgarem a mudança. 

Segundo ele, o americano Alan Gross não era "inocente" como alegam os EUA e estava envolvido em uma operação que buscava a mudança do regime cubano quando foi preso, em 2009, interrompendo a movimentação de Obama em favor da normalização do relacionamento com Cuba.

Kornbluh acredita que Obama e Raúl poderão fumar cohibas quando se encontrarem no Panamá em abril, durante a Cúpula das Américas. "Em vez de um cachimbo da paz, poderemos ver um charuto da paz."

Como o acordo entre EUA e Cuba começou a ser costurado?

Nos primeiros meses da presidência de Obama, os países latino-americanos pressionaram para que ele fosse à Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago (em 2009) com uma nova política para Cuba. Ele foi na defensiva, mas deixou claro que a política em vigor havia falhado, que havia um longo caminho para a normalização e passos críticos a serem tomados para um novo dia e um novo começo nas relações EUA-Cuba. Logo depois, ele anunciou que permitiria viagens de todos os cubano-americanos para Cuba. Ele não poderia suspender o veto de viagens para todos os americanos, que é parte do embargo, mas poderia abrir isenções. Ele também elevou o limite de dinheiro que os cubano-americanos poderiam enviar para seus parentes. Quando milhares de cubano-americanos na Flórida passaram a ir para Cuba, as pesquisas de opinião começaram a mudar e ficou claro que a maioria se tornou favorável a melhores relações com Cuba. 

Tudo parecia estar avançando bem até dezembro de 2009, quando Gross foi preso. Ele foi detido porque a Usaid (Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA) tem esses programas de promoção da democracia. O Congresso destina US$ 15 milhões a US$ 20 milhões a eles por ano e não há maneiras criativas de gastar esse dinheiro. Qualquer coisa que pareça ajudar dissidentes em Cuba é financiada.

A segunda maior prestadora de serviços da Usaid é a DAI, que recebe cerca de US$ 330 milhões por ano em contratos com o governo. Eles encontraram Gross, que propôs a criação de uma rede de comunicações por satélite pelo qual os EUA poderiam monitorar o tipo de informação buscada pelos que participassem dela. Com isso, identificariam potenciais opositores do governo, com os quais poderiam ter contato direto. 

O programa era do governo (George W.) Bush e Gross ganhou o contrato em 2008, antes de Obama ser eleito e foi enviado a Cuba nessa missão ridícula, para a qual estava totalmente despreparado. Ele nem fala espanhol e aceitou porque era uma grande quantidade de dinheiro. A sua prisão acabou com a possibilidade de Obama avançar. 

Quando surge uma nova oportunidade?

Assim que Obama é reeleito, ele diz aos assessores que vai mudar a política em relação a Cuba. A primeira coisa que ele tem de fazer é trazer Alan Gross de volta. Os cubanos respondem que não o darão, a menos que os EUA devolvam os cinco cubanos (espiões, dos quais restavam três nos EUA). Eles começam a negociar e dão ao projeto o codinome Projeto Esquilo, inspirado em um famoso cartoon da revista Ranger Rick. 

Por que o uso de codinome e por que as negociações foram secretas?

Codinomes são usados quando se trabalha em algo secreto, sobre o qual é necessário realizar comunicações. É preciso sinalizar que, quando essa palavra aparece, se trata de algo que não pode ser visto por certas pessoas. A preocupação não era apenas com os inimigos. Havia o receio de escuta pelas próprias agências do governo, FBI, CIA, NSA, pelo temor de que alguém sabotasse as conversas. É muito sensível do ponto de vista político para fazer de maneira aberta.

Também é sensível fazer diretamente? 

Estou certo de que também houve vários emissários agora. Alguém tem que levar a mensagem aos cubanos de que nós queremos nos encontrar em Toronto em uma data específica. Eles não telefonam diretamente para dizer isso. E eles tiveram de se encontrar fora de Cuba e fora dos EUA para que ninguém os visse.

O sr. se surpreendeu com o anúncio?

Eu sabia que Gross seria libertado e supus que isso significava que um, dois ou três espiões voltariam a Cuba. Eu sabia que o presidente havia sido aconselhado – e nós aconselhamos isso no livro – a não fazer a mudança passo a passo, mas anunciar uma mudança completa da política.

O passo a passo foi o que outros presidentes antes de Obama fizeram. Anunciavam uma coisa e esperam uma resposta. Quando a recebessem, poderiam fazer mais. Nada disso funcionou, porque os inimigos de melhores relações sabiam que isso era um processo e tentavam interrompê-lo de alguma maneira. A ideia oposta é simplesmente mudar a política, especialmente se os seus interesses não estão sendo atendidos pela política antiga, que estava em vigor havia 50 anos. 

Por que Cuba decidiu mudar agora?

Cuba sempre quis ter melhores relações com os EUA. Grande parte do livro é sobre os gestos de Fidel Castro aos novos presidentes americanos. Ele enviou Che Guevara para falar com os caras de (John) Kennedy cinco meses depois da invasão da Baía dos Porcos (em 1961). Os EUA tinham acabado de invadir Cuba e ele ainda estava disposto a explorar melhores relações. 

Assim que Kennedy morreu, Fidel enviou uma mensagem a (Lyndon) Johnson dizendo que estava em conversas com Kennedy e que gostaria de conversar com ele. Fidel mandou uma mensagem até para Richard Nixon, a quem ele havia encontrado (em 1959, quando Nixon era vice-presidente) e sabia que era um idiota. Mas Cuba sempre quis melhores relações em seus próprios termos e com respeito mútuo. Isso significaria a validação suprema da Revolução, forçar o império a aceitar o fato consumado da Revolução Cubana e derrotar a política de agressão dos EUA depois de 55 anos. 

E por que não aconteceu antes?

Eles não tinham as circunstâncias políticas atuais, não tinham uma moeda de barganha como Gross e não tinham uma situação na qual Brasil, Argentina e o restante da América Latina finalmente disseram: ‘Chega! Não vamos ficar parados enquanto vocês tentam isolar Cuba. Se vocês querem outra Cúpula das Américas, se querem ter diplomacia regional, Cuba terá de ser incluída’. As estrelas finalmente se alinharam para que isso ocorresse.

Durante 55 anos, quais foram os momentos em que os dois países estiveram mais próximos de restabelecer relações? 

Os momentos mais próximos foram o verão de 1975, com Henry Kissinger, e mais tarde, com Jimmy Carter. Kissinger estava realmente interessado em ter melhores relações, porque Cuba era um problema grande na região e criou várias dores de cabeça para ele. Naquele momento, Fidel estava menos interessado. Ele era líder do movimento não alinhado e de lutas anticolonialistas na África. Quando um partido marxista que estava sendo desafiado militarmente pelos EUA e a África do Sul pediu o seu apoio em Angola, Fidel mandou tropas, o que tornou muito difícil para Kissinger avançar (o partido, MPLA, chegou ao poder em 1975).

Um pequeno país como Cuba enviar 3.500 soldados para a África e projetar poder de maneira que só as superpotências projetavam mudou a equação. Fidel estragou os planos de Kissinger de usar a CIA para manter um aliado soviético fora de Angola. Carter também estava bastante interessado. Ele se torna presidente (em 1977) e assina um documento incrível, determinando a mudança nas relações com Cuba, mas fica prisioneiro da mesma questão que afetou Kissinger, a África.

Sob Carter, houve seis encontros secretos e todos tinham as mesmas questões. Os EUA diziam que queriam ter melhores relações, mas que Cuba tinha de sair da África para que o embargo fosse levantado. E os cubanos respondiam: “Nós não dizemos como vocês têm de conduzir sua política externa e vocês não deveriam dizer como conduzir a nossa”. 

Nos encontros que os assessores de Obama tiveram nos últimos 18 meses também houve uma discussão circular, na qual os EUA diziam que queriam melhorar relações, mas precisava de Gross de volta. E os cubanos diziam que precisam de seus espiões de volta para dar Gross. E os EUA diziam que não podiam trocar Gross, que não era um espião, por três caras que eram espiões. Eu diria “por que não?” Na verdade, Gross estava fazendo algo pior do que os espiões. Ele não era um cara inocente. Ele estava envolvido em um programa de mudança de regime, enquanto os espiões não ameaçaram a segurança do governo americano. Eles estavam tentando assegurar que Cuba não fosse alvo de ataques terroristas organizados por grupos da Flórida. E estavam na prisão havia 16 anos. 

Finalmente alguém dos EUA sugeriu a libertação do ativo da CIA que estava na prisão em Cuba havia quase 20 anos, Rolando Sarraff. Se eles o entregassem, nós poderíamos apresentar o argumento político de que ganhamos um grande espião e demos três espiões. Separadamente, Cuba libertaria Gross. 

Qual o impacto da mudança na relação dos EUA com a América Latina?

Extremamente positiva. Vamos ver isso na Cúpula das Américas, em abril, para a qual Raúl Castro deve levar caixas de cohibas para todo mundo e ele e Barack Obama poderão fumar juntos. Em vez de um cachimbo da paz, poderemos ver um charuto da paz. Os países da OEA (Organização dos Estados Americanos) ficarão extremamente felizes em ver essa questão resolvida, porque é uma distração dos problemas reais que a região precisa enfrentar, como narcotráfico e violência, migração, meio ambiente, corrupção. Por que perder tempo com essa insanidade? 

Um tema recorrente em seu livro são as tentativas dos EUA de promover uma mudança de regime em Cuba. Os EUA finalmente desistiram?

Acredito que sim. Há os que dizem que é muito cedo para dizer isso, que os programas pró-democracia continuam, mas a relação EUA-Cuba é contextual. Quando você realmente tem uma política de estranhamento e hostilidade, esses programas são vistos de certa maneira. Mas em um contexto normal, será diferente. 

Entre os inúmeros emissários que atuaram entre os EUA e Cuba nas últimas cinco décadas e meia, quais foram os mais interessantes?

Costumo ressaltar quatro pessoas. Há uma repórter do período Kennedy-Johnson, Lisa Howard, que sempre me intrigou muito. No início dos anos 60, as redes de TV não tinham repórteres mulheres e ela se tornou a primeira correspondente da ABC News. 

Mas eu me foco mais em outros três. Gabriel García Márquez, um intermediário extremamente interessante, atuou no governo Bill Clinton (o escritor levou uma mensagem de Fidel a Clinton em 1994). Jimmy Carter usou o presidente da Coca-Cola, Paul Austin, para enviar mensagens a Fidel, mas deu tudo errado (em 1978, Carter pediu que ele levasse uma carta a Fidel, na qual propunha a normalização das relações bilaterais).

A normalização das relações e a gradual abertura econômica de Cuba levará a mudanças políticas?

Sabemos que a política dos últimos 50 anos fracassou e se os EUA quiserem influenciar Cuba é melhor ter conexões do que não tê-las. Eu tenho um argumento diferente do econômico. Cuba viveu sob uma ameaça existencial do império americano por mais de meio século. A Baía dos Porcos não foi algo irrelevante. Só alguns países na região experimentaram uma invasão militar ou paramilitar. 

Não é surpreendente que Cuba tenha um Estado de segurança nacional, um Estado que não é controlado por democratas ou pessoas que acreditam no governo representativo, mas por generais, pessoal de inteligência, comandantes. Essas pessoas sempre tiveram uma razão de ser pela ameaça dos EUA, que se manifestou de várias maneiras: invasão, planos de assassinatos, programas de mudança de regime. Uma vez que essa ameaça seja afastada, o poder dos generais deverá diminuir. Para mim, esse processo é que vai mudar o governo cubano. 

O que acontecerá em Cuba no curto prazo?

O próximo anúncio será a unificação das duas moedas e isso criará uma série de questões para grande parte dos cubanos que não tem acesso aos CUCs, a moeda mais valorizada (atrelada ao dólar, o CUC vale 24 pesos cubanos, a moeda em que os cubanos recebem e compram produtos subsidiados). Eles vão unificar essas moedas e será muito difícil para as pessoas que ganham a vida em pesos e têm sua poupança em pesos. Essa é uma das razões pelas quais Raúl terá de acelerar a privatização da economia para gerar mais empregos. O processo será dramático e doloroso e é por isso que vem sendo adiado. Mais do que qualquer operação encoberta, isso é o que pode gerar oposição.

O que acontecerá depois dos Castro? Qual o grau de institucionalidade de um processo de sucessão?

O Partido Comunista de Cuba é estruturado e isso ficou claro depois que Fidel Castro ficou doente. Não houve agitação, não houve protestos ou questionamentos sobre a transição. Eles já escolheram Miguel Diaz-Canel, um economista de 55 anos que era ministro da Educação, para suceder Raúl dentro de três anos. 


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