Imagem Adriana Carranca
Colunista
Adriana Carranca
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vergonha para a humanidade

Na tarde de quarta-feira, duas bombas de barril, artefato dos mais destrutivos e letais, foram lançadas contra prédios de uma área civil em Alepo, no noroeste da Síria. O responsável pelo ataque esperou que as equipes de emergência pudessem transportar os sobreviventes para o Hospital Al-Quds, onde médicos e enfermeiros começaram a trabalhar freneticamente para socorrê-los e famílias se amontoaram no portão de entrada em busca de informações sobre parentes feridos. Minutos depois, lançaram a terceira bomba sobre a unidade.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2016 | 06h46

Entre os mais de 50 corpos retirados dos escombros, até a tarde de ontem, estava o do único pediatra restante na cidade, Wasem Maaz. Como outros mortos no ataque, ele trabalhava voluntariamente. Muitas das crianças sob seus cuidados também morreram, soterradas no prédio reduzido a ruínas em segundos. As cenas que o ataque produziu são chocantes demais para serem exibidas, mas não devem ser ignoradas pela História. 

São registros da barbárie cometida diante de nossos olhos. Quando a História cobrar seu preço, as autoridades reunidas em Genebra para negociações de paz, até agora infrutíferas, não poderão alegar que não sabiam. Em entrevista à coluna, por telefone, o presidente da Médicos Sem Fronteiras espanhola, responsável pelas operações da organização na Síria, José Antonio Bastos, fala em “ataque deliberado” contra civis e ação “premeditada e proposital contra equipes de ajuda humanitária e de saúde”. 

“Embora não haja, a essa altura, evidências sobre quem é o responsável por este ataque, nós sabemos que (Bashar) Assad tem usado bombas de barril contra alvos civis, no contexto da guerra na Síria somente seu exército e aliados dispõem de força aérea e os ataques ocorreram contra áreas da oposição. Isso, aliado ao fato de que temos testemunhado uma tentativa do governo de cercar Alepo, com ataques durante o cessar-fogo, é possível afirmar que, muito provavelmente, o ataque ao hospital faz parte dessa ofensiva”, disse ele. “Isso aliado ao fato de que esse hospital era um dos mais antigos ainda em operação e todas as partes desse conflito sabiam de sua existência e localização, leva a crer que foi ataque deliberado.”

O cessar-fogo deveria ser mantido até o fim das negociações em Genebra, previsto para 10 de maio. Diante do impasse sobre a permanência de Assad no poder, o presidente, que tem apoio da Rússia, intensificou bombardeios nos últimos dias para tentar cercar o leste de Alepo e estrangular a oposição, deixando-os sem saída e sem acesso a suprimentos, comida, assistência humanitária ou médica, ou seja, matando-os aos poucos – e a população, já exausta e faminta, com eles. 

Centenas de civis morreram. Antes uma cidade moderna de 5 milhões de habitantes, Alepo tem hoje 250 mil civis sitiados pelos confrontos e aterrorizados. O aumento da violência impediu as organizações humanitárias de concluir a entrega da ajuda prevista durante o cessar-fogo.

“Nos últimos dias, ataques militares têm-se acumulado, um atrás do outro, contra o centro de Alepo. Nós estávamos operando com toda a equipe, porque sabíamos que uma ofensiva estava por vim”, disse José Antonio. “É impossível estar seguro em Alepo agora.”

A organização conta com uma equipe móvel, mas vans da ajuda humanitária e até ambulâncias têm sido alvo de ataques na única estrada de acesso à cidade, que divide a área controlada por rebeldes e por forças do governo. No mês passado, ao menos quatro outros hospitais foram atacados. Alvejar agentes de ajuda humanitária e de saúde, segundo José Antonio, tem sido usado como tática de guerra, para evitar que opositores sobreviventes de ataques sejam tratados e tenham qualquer chance de sobreviver. 

As atrocidades do Estado Islâmico que chocaram o mundo serviram, nos últimos anos, ao governo de Assad.

“A violência do EI é bem conhecida, mas enquanto o mundo estava preocupado com o grupo, em termos quantitativos e no que diz respeito ao uso de bombas de barril, Damasco tem mais a ser responsabilizado”, diz José Antonio. “O nível de desumanidade é geral, mas o número e a violência dos ataques do governo têm sido maiores.”

Nos conflitos, equipes de busca e resgate, hospitais e áreas onde há civis devem ser poupadas, segundo as Convenções de Genebra, e ataques contra tais alvos são crimes de guerra. “Bombardear um hospital é, em qualquer circunstância e sem sombra de dúvidas, um crime de guerra. Mas um ataque como este, sem nenhum alerta prévio e da forma premeditada como foi feito, com uma bomba lançada no hospital onde feridos, equipes de resgate e de saúde e famílias se aglomeravam – como consequência de dois outros ataques anteriores –, vai além. É uma vergonha para a humanidade.”

Mais conteúdo sobre:
Guerra Civil Síria Adriana Carranca

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.