Arquivo/Efe
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'Vernon Walters entrava na sala de Galtieri sem bater'

Segundo ex-vice-chanceler argentino, falta de coordenação entre as três armas era como ‘filme de Woody Allen’

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

31 Março 2012 | 16h57

BUENOS AIRES – O diplomata Gustavo Figueroa, vice-chanceler da Argentina na época da Guerra das Malvinas, foi uma testemunha privilegiada dos conturbados dias do conflito bélico. Embaixador de prestígio, em entrevista ao Estado em 2007, Figueroa – que morreu no ano passado – relatou a estranha influência de Vernon Walters, embaixador especial do então presidente americano Ronald Reagan para a América Latina, na Junta Militar argentina. Além disso, explicou a ingenuidade dos militares, que acreditavam piamente que a Grã-Bretanha não reagiria e que não tentaria reaver as Malvinas.

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Estado: A Junta Militar acreditava que os EUA ficariam neutros durante a guerra, e que não estariam do lado de seu aliado na OTAN, a Grã-Bretanha?

Gustavo Figueroa: Os militares, quando decidiram recuperar as Malvinas, acreditavam de forma equivocada que os EUA não iam interferir, como pagamento pelos oficiais que a Argentina havia enviado à Honduras para treinar os contras que lutavam contra o regime sandinista da Nicarágua. E considero que Vernon Walters teve algum papel nesse convencimento dos militares argentinos...

 

Estado: Qual era a influência de Walters na Junta Militar? Era um homem que, especula-se, esteve por trás do golpe de Pinochet no Chile, do golpe de 1964 no Brasil e coincidentemente era embaixador na Alemanha Ocidental quando caiu o muro de Berlim.

 

Gustavo Figueroa: Era um personagem muito inteligente. Uma mistura de homem do Exército e da CIA, mas muito civil na forma de ser. Falava vários idiomas, entre os quais, um impecável castelhano. E, para os militares argentinos, que geralmente não falavam idioma algum além do próprio, Walter era um interlocutor natural. Durante a Guerra das Malvinas ele chegava na Casa Rosada e entrava na sala de Galtieri sem bater na porta. Ele era um habitué da Casa Rosada e da residência de Olivos desde a Junta anterior à de Galtieri, a do general Viola.

 

Estado: Durante o conflito, os EUA enviaram uma delegação para tentar estabelecer negociações entre a Argentina e a Grã-Bretanha. Walters participava?

 

Gustavo Figueroa: Era estranho. Walters também participava das reuniões. Mas, os americanos e os argentinos sentavam-se na parte central de uma longa mesa. No entanto, Walters ficava sozinho na ponta, afastado da delegação americana anotando coisas. Depois ia embora, separado dos seus colegas, e ia telefonar sabe-se lá para quem...

 

Estado: Quais foram os principais erros de avaliação na guerra?

Gustavo Figueroa: Há vários personagens que cometeram erros em toda esta história; por um lado, a Embaixada americana em Buenos Aires, que não imaginava, dias antes da invasão, que esta poderia ocorrer. E a Junta Militar, que achava que, tal como um militar me disse, que os ingleses iam ter náuseas nos navios e que os planos para retomar as ilhas fracassariam. Estavam convencidos disso. Vi os documentos nos quais a Inteligência Naval afirmava que os britânicos não viriam.

 

Estado: Havia coordenação entre o Exército, a Marinha e a Aviação?

 

Gustavo Figueroa: Era como um filme de Woody Allen. Cada uma das três armas agia sem consultar ou informar as outras. Esse foi o caso da Operação Algeciras, um plano da Marinha, que enviou três homens à cidade espanhola de Algeciras, na frente da base britânica de Gibraltar, para colocar bombas nos navios e afundá-los. Eles foram descobertos pela polícia espanhola antes de chegar ao destino, porque haviam ultrapassado o prazo de entrega dos carros, que eram alugados... Nosso embaixador em Madri ligou para Buenos Aires e eu atendi. Ele me contou essa história mirabolante, da qual nós não tínhamos a menor ideia. O chanceler Nicanor Costa Méndez então ligou a Galtieri, que tampouco sabia de coisa alguma. Era assim. Cada arma fazia o que queria. E tudo era na base do dia a dia... A Junta não fazia planos para médio ou longo prazo.

 

Estado: Enquanto a Junta estava entusiasmada, o que pensavam os diplomatas?

 

Gustavo Figueroa: No início, o governo havia dito à Chancelaria que pretendia negociar. Mas, depois se inebriaram com a reconquista das Malvinas e deixaram isso de lado. Costa Méndez quis em duas ocasiões renunciar. Mas não dava. Imagine o que teria sido que um chanceler renunciasse no meio de um conflito bélico. No início, a Chancelaria esperava que pudesse ser feita uma negociação.

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