Felipe Corazza/ESTADÃO
Felipe Corazza/ESTADÃO

Vestígio do chavismo no extremo do Brasil

Ana Ribeiro, comerciante cearense de Pacaraima, é fã de Chávez e culpa Maduro por crise venezuelana

Felipe Corazza, Enviado Especial / Pacaraima, Roraima, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2016 | 06h00

PACARAIMA, RORAIMA - Em meio a dezenas de armazéns que vendem arroz, açúcar e outros itens essenciais para venezuelanos que cruzam a fronteira com Roraima, empurrados pela crise econômica do país vizinho, dois pôsteres de Hugo Chávez se destacam na parede de uma loja de roupas. A proprietária não é uma venezuelana, mas sim Ana Ribeiro, cearense que há nove anos trabalha em Pacaraima, município brasileiro à beira da divisa entre as duas nações.

“Sou chavista”, afirmou ao Estado a comerciante, que se divide entre o balcão da loja de roupas e o atendimento em uma banca de lanches em um anexo do negócio principal. Enquanto venezuelanos zanzam pelas ruas do pequeno município em busca de trabalho, trocando dinheiro ou esperando que alguém lhes ajude a chegar até Boa Vista ou Manaus, Ana defende o líder bolivariano morto em 2013.

Mudanças. “Enquanto estava o Chávez (no poder), não tinha essa fome na Venezuela.” A brasileira, que também viveu no Estado venezuelano de Bolívar, acredita que foi o governo de Nicolás Maduro que arruinou a economia do país caribenho, ainda que os primeiros sinais de crise grave nas finanças venezuelanas tenham se manifestado bem antes da morte do padrinho político do atual presidente.

Servindo sanduíches de linguiça a mil bolívares - quase todo o comércio de Pacaraima aceita a moeda venezuelana como pagamento -, ela conta que não gosta da situação atual da cidade, caótica em razão da afluência de refugiados e de cidadãos do país vizinho que não vêm para ficar, mas para comprar alimentos, medicamentos e itens de higiene em grandes quantidades para consumir ou revender do outro lado da fronteira.

Apesar do aumento do fluxo de pessoas - o que, para o comércio, parece um bom negócio à primeira vista -, ela diz que não se beneficia disso. “Eu acabo até doando coisas. No começo, eles encostavam aqui e pediam comida, eu dava um sanduíche, um pastel. Não me fazia falta. Até roupa já doei. Mas agora não dá mais”, afirma, explicando que o número de pedintes é tão alto que iria à falência se decidisse ajudar a todos.

Desde que se mudou para Pacaraima, Ana viu diferentes movimentos no fluxo de visitantes, migrantes e moradores antigos. “O pessoal (moradores antigos) foi embora. A maioria foi embora para Boa Vista, para Manaus. Mas muitos estão voltando agora. A cidade é muito boa, mas está essa sujeira aí”, diz, mostrando as sarjetas entupidas de plásticos, garrafas e embalagens de produtos que são comprados nos armazéns. A calçada da loja dela e o piso diante do “puxadinho” de lanches, no entanto, estão impecáveis. “Eu lavo isso aqui duas vezes por dia. Nunca fico sem lavar. Como vou servir comida com chão sujo?”

Apesar de não afirmar o quanto o movimento extra de venezuelanos afetou seus negócios, a comerciante admite que ampliou seu horário de trabalho. “O ritmo aqui, agora, é como ‘cantiga de grilo’. Não acaba nunca”. 

Ana abre a loja e a lanchonete às 7 horas e encerra o expediente às 19 horas ou às 20 horas, dependendo do movimento. Sempre sob os olhares de Hugo Chávez e de Simón Bolívar, companheiro do líder bolivariano nos pôsteres da chavista brasileira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.