Vetar criação de Estado é perder um aliado

Posição dos EUA contra palestinos na ONU fortaleceria o Irã e causaria danos na relação estratégica com sauditas

Turki Al-Faisal, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2011 | 00h00

Os EUA precisam apoiar a declaração de um Estado palestino na ONU este mês se não quiserem correr o risco de perder a pouca credibilidade que lhes resta no mundo árabe. Caso contrário, a influência americana será enfraquecida ainda mais, a segurança de Israel será prejudicada e o Irã ganhará força, aumentando o risco do início de uma nova guerra na região.

Além disso, a Arábia Saudita não vai mais poder cooperar com os EUA como tem feito historicamente. Com a maior parte do mundo árabe em sublevação, o "relacionamento especial" entre Arábia Saudita e EUA seria visto cada vez mais como algo "tóxico" pela grande maioria dos árabes e muçulmanos, que exige justiça para o povo palestino.

Os líderes sauditas se veriam obrigados por pressões domésticas e regionais a adotar uma política externa muito mais independente e assertiva. Como no caso do apoio militar saudita à monarquia do Bahrein, ao qual os EUA se opuseram, a Arábia Saudita buscaria outras políticas em dissonância com os interesses americanos, entre elas, a oposição ao governo do primeiro-ministro Nuri al-Maliki no Iraque e a recusa em abrir uma embaixada naquele país apesar da pressão americana. O governo saudita pode também deixar de apoiar os EUA no Afeganistão e no Iêmen.

O povo palestino merece o seu Estado e tudo aquilo que isto acarreta: reconhecimento oficial, apoio por parte das organizações internacionais, a capacidade de lidar com Israel num patamar de maior igualdade e a oportunidade de viver em paz e em segurança.

Israel deve enxergar a declaração de um Estado palestino não como uma ameaça, e sim como uma oportunidade de voltar à mesa de negociações e evitar novos conflitos. Recentes pesquisas de opinião mostram que até 70% dos palestinos dizem acreditar que haverá uma nova intifada se o impasse não for superado rapidamente; isso deveria encorajar Israel a buscar o estabelecimento da paz com o líder palestino moderado Mahmoud Abbas.

O governo Obama teve numerosas oportunidades para conduzir israelenses e palestinos a negociações bilaterais de paz, mas os governantes americanos infelizmente se mostraram mais preocupados com uma economia doméstica em franca deterioração e um cenário político de paralisia em detrimento da busca por uma solução viável para essa injustiça épica.

Como Washington não ofereceu nenhuma nova proposta viável, o mínimo que os EUA podem fazer agora é sair do caminho e não prejudicar as tentativas dos sauditas, dos europeus e dos árabes moderados de fazer avançar os direitos palestinos nas Nações Unidas.

Até funcionários do governo israelense admitiram recentemente em conversas particulares com seus correspondentes europeus que somente a Arábia Saudita poderá conferir aos palestinos a legitimidade religiosa, política e financeira da qual eles precisam para chegar a um acordo com Israel. A Arábia Saudita já destinou US$ 2,5 bilhões do seu orçamento para auxiliar a Autoridade Palestina desde junho de 2009, o que faz do país de longe o maior patrocinador da causa palestina. Mas este dinheiro não será de grande valia até que os palestinos tenham garantidos os seus direitos fundamentais.

O plano de paz árabe de 2002 deve ser o ponto de partida das negociações; uma solução de dois Estados com base nas fronteiras de 1967 é o único alicerce realista sobre o qual as negociações de paz podem ser reabertas, levando-se em consideração a inutilidade evidente do Processo de Paz de Oslo.

A iniciativa da declaração de um Estado palestino é uma oportunidade de substituir Oslo por um outro paradigma com base nas negociações entre um Estado e o outro - uma proposta que só tem vencedores, tornando o conflito mais fácil de administrar e estabelecendo as bases de uma solução duradoura.

Os únicos perdedores neste cenário seriam a Síria e o Irã, Estados párias que trabalharam incansavelmente - por meio do seu apoio ao Hamas e ao Hezbollah - no sentido de prejudicar o processo de paz. A Arábia Saudita desempenhou recentemente um importante papel no isolamento do brutal governo do presidente sírio, Bashar Assad, ao exigir o fim da morte de manifestantes no país e reconvocar o embaixador saudita em Damasco. A iminente queda do bárbaro regime de Assad nos presenteará com uma rara oportunidade de enfraquecer o Irã. Sem esse aliado vital, Teerã enfrentará maior dificuldade para fomentar a discórdia no mundo árabe.

Hoje, existe uma chance para que EUA e Arábia Saudita contenham o Irã e impeçam o país de desestabilizar a região. Mas essa oportunidade será desperdiçada se os atos do governo Obama na ONU obrigarem nossos países a se afastar cada vez mais um do outro.

Apesar de a Arábia Saudita estar disposta a trilhar um rumo divergente do americano e ser capaz de fazê-lo se os EUA não agirem com justiça em relação aos palestinos, o Oriente Médio seria muito beneficiado pela continuidade da cooperação e boa vontade entre esses dois antigos aliados.

O apoio americano à declaração de um Estado palestino é, portanto, crucial, e um veto à iniciativa teria profundas consequências negativas. Além de causar um substancial estrago nas relações entre americanos e sauditas e provocar a indignação dos muçulmanos de todo o mundo, os EUA prejudicariam ainda mais suas relações com o mundo muçulmano, fortalecendo o Irã e ameaçando a estabilidade regional.

Resta torcer para que os EUA escolham o rumo da justiça e da paz. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É DIRETOR DO CENTRO DE PESQUISAS E ESTUDOS ISLÂMICOS REI FAISAL, FOI DIRETOR DOS SERVIÇOS SAUDITAS DE ESPIONAGEM E EMBAIXADOR SAUDITA NOS EUA

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