Inez and Vinoodh / The New York Times
Inez and Vinoodh / The New York Times

Veto a militar transgênero remete a ações contra mulheres e negros

O argumento de que a integração causaria "transtornos" foi ouvido antes

Philip Bump / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2017 | 05h00

A questão dos custos levantada por Donald Trump para vetar militares transgênero aparentemente se refere a procedimentos como a cirurgia de redesignação de gênero. Isso foi tema de um relatório da Rand, que calculou um aumento de 0,04 a 0,13% nas despesas médicas militares caso essas pessoas possam servir o Exército. Trump propôs um acréscimo de 10% no gasto militar geral, o que certamente poderia absorver esse aumento.

Mas e os tais “transtornos” que seriam causados pela integração de soldados transgêneros? É um argumento que já ouvimos antes. Quando os homossexuais americanos exigiram esse direito, esse foi o principal argumento contra a mudança. Quando as mulheres exigiram posições de combate, mesma coisa. E quando os negros foram integrados às Forças Armadas? Exato: alertas sobre os transtornos.

Em 1948, o presidente Harry Truman encaminhou um projeto para a total integração de americanos negros. Membros de seu Partido Democrata se opuseram. O Washington Post publicou as objeções em junho daquele ano. Tom Stewart, ex-senador pelo Tennessee, propôs “que os homens em serviço escolhessem se queriam ou não servir em unidades mistas”, para evitar a ofensa à sensibilidade daqueles que estavam determinados a manter a segregação.

Lister Hill, senador pelo Alabama, afirmou que a integração “prejudicaria seriamente o moral do Exército em um momento em que nossas Forças Armadas deveriam estar no seu auge de força e eficiência”. E qualificou de “infeliz” o projeto de Truman.

O general Bradley, chefe de gabinete do Exército em 1948, argumentou que as Forças Armadas deveriam seguir o povo americano na rejeição à segregação, mas não liderá-lo. Por isso, foi bastante elogiado, até mesmo por um colunista do New York Times, Hanson Baldwin. “O mais importante”, escreveu Baldwin sobre as declarações de Bradley, “é a eficiência do Exército, da qual faz parte o moral.

Essa é a responsabilidade pessoal do general Bradley. Depois de longa experiência com o problema, ele sabe, assim como o sabem quase todos os oficiais do Exército, que uma regra rígida, rasa e inflexível que de imediato entrelace completamente a força de trabalho branca e a negra, em todas as unidades táticas, seria uma das formas mais seguras de solapar o moral do Exército e arruinar sua eficiência”. Não foi o que aconteceu.

Havia cerca de 62 mil soldados negros no Exército em 1948, quase um décimo do total. A Rand estima que hoje existam algo entre 1 mil e 7 mil transgêneros em serviço, dentro de um total de 1,3 milhão. 

Na década de 90, o argumento se deslocou para o papel das mulheres nas Forças Armadas. Lou Marano escreveu um artigo contra a permissão para mulheres atuarem em posições de combate. “Também se diz que a distração sexual na vida militar é um problema apenas para dinossauros como eu e a esclarecida geração de jovens dos dias de hoje não desenvolve nada além de afeto fraternal por suas ‘camaradas’”, escreveu ele. 

A fisiologia das soldadas também teve papel importante no debate. Newt Gingrich, dividindo seu tempo entre a presidência da Câmara e o cargo de professor de história no Reinhardt College em 1995, disse a seus alunos que as mulheres não seriam capazes de lidar com certas realidades do combate.

“As mulheres enfrentam problemas biológicos para ficar 30 dias em uma trincheira, pois sofrem infecções e não têm força nos membros superiores”, disse Gingrich. “Os homens, por outro lado, gostam de rolar na sujeira”, completou.

Esse argumento vem à tona ainda hoje: os homens ficam distraídos demais na presença das mulheres, por isso não podem servir lado a lado. Uma pesquisa no Google sobre “mulher e distração militar” traz 857 mil resultados.

O projeto de lei de 1997 que impedia a integração entre homens e mulheres no início da vida militar suscitou uma reação inusitada por parte do coronel Vincent J. Inghilterra, capelão em Fort Leonard Wood. “Por causa dos rigores e das limitações fisiológicas das recrutas femininas diante das exigências da preparação, algumas recrutas podem se sentir tentadas lançar mão de sua sexualidade para angariar tratamentos especiais”, escreveu em uma carta aos legisladores.

O projeto de lei também contou com o apoio do então senador Daniel Coats, hoje diretor de Inteligência Nacional do governo Trump. A nomeação de Coats também recebeu críticas por parte daqueles que defendiam um papel mais expressivo para os homossexuais dentro do Exército (tema igualmente debatido na década de 90). Mais uma vez, surgiu um argumento semelhante.

“O problema com os homossexuais servindo abertamente”, disse um coronel aposentado durante uma audiência sobre o assunto em 1993, “é a possibilidade de isso se tornar um ponto de cisão em unidades menores”. Já em 2010, quando se tentava revogar a lei do “não pergunte/não diga”, o general James Amos, comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, apresentou uma variação que seguia na mesma linha: soldados homossexuais poderiam ocasionar mortes em combate.

“Quando sua vida está por um fio você não quer nenhuma distração (...). Erros e desatenções ou distrações custaram muitas vidas de fuzileiros navais”, declarou. Quando o projeto de lei foi derrubado, o senador John McCain (republicano do Arizona) lamentou a decisão, fazendo eco a Amos. 

Apesar de todas essas advertências, o próprio presidente Trump várias vezes refletiu sobre o modo como os militares emergiram dessas integrações: melhores. “Ter a melhor tecnologia e os melhores equipamentos é apenas uma parte do domínio militar americano”, disse ele no fim de semana. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

É JORNALISTA

 

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