Zohra Bensemra/Reuters
Zohra Bensemra/Reuters

Via SMS, Al-Qaeda recruta argelinos

Pobreza e falta de oportunidades formam caldo de cultura ideal para grupos extremistas que atuam na Argélia e países vizinhos

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

"Junte-se a nós e seus problemas estarão resolvidos." Jovens argelinos tem recebido essa mensagem por SMS em seus celulares, Numa operação direta da Al-Qaeda para manter suas operações e usar cada vez mais o norte da África como base de recrutamento do grupo.

No vilarejo de Baghlia, a 97 quilômetros da capital, Argel, ou nos subúrbios pobres das grandes cidades, terroristas islâmicos descobriram que não será a religião nem o ódio ao Ocidente que fará seu exército de aliados expandir-se. A busca é simplesmente por jovens desesperados, sem emprego, rejeitados pela autoridades de imigração europeia e, principalmente, sem perspectivas. Por anos, o governo argelino não economizou recursos para frear o avanço islamita e as autoridades chegam a constatar que Argel foi a primeira vítima do fundamentalismo islâmico, ainda no começo dos anos 90. Em grande parte, esses grupos foram derrotados, depois de uma guerra matou 150 mil.

Agora, porém, redutos de fundamentalistas ainda conseguem sobreviver e, cada vez mais, ganham uma proporção que vai bem além das fronteiras da Argélia. Nesta semana, o Exército argelino deu início a uma operação de mais de 4 mil soldados na região de Kabylie para tentar desmantelar as redes de terroristas, justamente antes das festas de fim de ano, que podem ser consideradas alvos de ataques terroristas.

Mas críticos do governo e a própria população alertam que não serão os soldados que aniquilarão os fundamentalistas. A solução, para muitos, virá apenas com uma situação social mais favorável.

James Philips, analistas de Assuntos do Oriente Médio da entidade Heritage, é um dos que advertem que a Argélia ainda vive uma "guerra civil em câmera lenta". Para Khalid Duran, do Fórum sobre Oriente Médio, os fundamentalistas islâmicos "não desapareceram, apesar de o governo tentar querer dar essa impressão". De um grupo de 35 mil islamitas nos anos 90, hoje os ativistas chegariam perto de 1,5 mil. Estão armados e são bem financiados.

O governo admite tacitamente que a ameaça não desapareceu. Em apenas 18 quilômetros percorridos pelo Estado, a reportagem deparou-se com cinco grupos do Exército que paravam cada carro na direção do centro da cidade. Os soldados, fortemente armados, concentravam-se em utilizar detectores de bombas. "Não há Exército que freie essa ameaça enquanto não houver comida para todos no interior", afirmou um taxista.

No vilarejo de Baghlia, a população de 20 mil pessoas recorda-se de como a região foi marcada nos anos 90 pelos conflitos e como acabou se transformando em um dos locais de resistência dos fundamentalistas. Cabeças eram deixadas em praças centrais para demonstrar a força do grupo.

Agora, o terror volta à região. Há cinco meses, assassinatos foram considerados uma demonstração de força pelos terroristas para garantir que fazendeiros locais paguem seus "impostos" ao grupo. Cada produtor é obrigado a dar 10% de sua renda aos terroristas para garantir proteção e, acima de tudo, sobreviver. Em agosto, o prefeito Mohamed Idir foi assassinado na porta de casa. O político estava organizando o que seria a primeira marcha civil contra o terrorismo desde os anos 90.

A mensagem do grupo terrorista era que a população não poderia contar com os políticos para sua proteção. Prefeitos de outras cidades da região decidiram abandonar suas casas e dormem em hotéis. Na cidade visitada pelo Estado, não são poucos os que garantem saber quem são os terroristas. Mas têm apenas três opções: pagar a contribuição, deixar a região ou enfrentar a morte.

Em Baghlia, o Estado foi recebido por uma família que pediu para não ser identificada. Temia a represália tanto do governo como dos fundamentalistas. Hassan, pai de cinco filhos, contou que um deles havia recebido o SMS com a proposta dos radicais. Ninguém sabe dizer como o grupo de fundamentalistas conseguiu o número do rapaz, de 17 anos. Sem trabalho e sem escola, o filho de Hassan passa o tempo com os colegas desempregados. Tem um celular pré-pago e mata as horas do dia como vendedor ambulante.

Hassan, preocupado, foi tentar saber mais sobre o que havia ocorrido e conta que descobriu algo que só tinha visto no início dos anos 90 quando os fundamentalistas ganharam terreno. Além da mensagem, links para sites terroristas eram apresentados, além de fotos de mártires e suicidas que, no mundo árabe, ficaram famosos.

"Achamos que, entre os falsos amigos de nosso filho, há gente que trabalha para esses grupos para recrutar jovens", afirmou Hassan, um sunita que se diz moderado.

Mas a estratégia vai além. Se o jovem responde positivamente ao SMS, recebe logo uma proposta financeira. Não apenas para ele, mas até mesmo para seus pais. Outra proposta é a de trabalhar como "informante", recebendo cerca de 100 por mês, um valor tentador. Entre os trabalhos propostos está o de identificar quem são os policiais do vilarejo e indicar a movimentação das tropas do Exército na região.

Essa, porém, seria apenas a porta de entrada para o grupo, que já estaria preparando a nova geração de terroristas, em uma tática que seria usada em todo o país. Na capital, nas estradas e mesmo em regiões ditas turísticas, o número de jovens perambulando simplesmente sem nada a fazer é grande. Muitos vendem cigarros, frutas ou apenas vivem jogando xadrez.

Uma das esperanças é a entrada de investidores estrangeiros.

Empresas como a brasileira Andrade Gutierrez, que já tem cinco obras na Argélia, tentam fazer sua parte. "Usamos muito a mão de obra argelina", confirmou o diretor executivo da empresa, Clovis Martines. Entre as obras da construtora, está a ampliação do metrô de Argel.

Oficialmente, o desemprego atinge 11% da população. Mas economistas e a própria Câmara de Comércio de Argel estima que o número seja bem maior. A cada quatro argelinos sem emprego, três têm menos de 30 anos. O governo prometeu investimentos de US$ 280 bilhões para modernizar o país entre 2010 e 2014. Mas escândalos de corrupção estão barrando o avanço de obras e o impacto da distribuição do dinheiro ainda não é traduzido em ganhos sociais para a população.

Informações divulgadas nesta semana pelo site WikiLeaks revelam que a corrupção atingiria até mesmo os irmãos do presidente Abdelaziz Buteflika e o desvio de verbas "interfere no desenvolvimento econômico". A avaliação é de Bernard Bajolet, ex -embaixador da França na Argélia e hoje coordenador dos serviços secretos franceses.

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