Viagem de Bush revela disputa entre Chávez e Lula

A viagem do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, pela América Latina revelou uma briga implícita entre Venezuela e Brasil pela liderança da região, disseram analistas.Apesar da relação próxima, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu colega venezuelano, Hugo Chávez, divergem sobre o rumo que a América Latina deve tomar para o desenvolvimento e em especial sobre o papel que Washington deve ter nesse processo."A viagem reitera uma realidade: a disputa pela liderança regional é entre Brasil e Venezuela", afirmou Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, com sede na Argentina.Bush escolheu São Paulo para começar a viagem vista por muitos como uma tentativa de ofuscar Chávez, principal crítico dos Estados Unidos na região e que ganha adeptos graças à política de assistência aos países mais pobres do continente financiada com o abundante dinheiro do petróleo. Na sexta-feira passada, no mesmo dia em que Bush selava uma aliança com Lula para estimular o uso e a produção de biocombustíveis, especialmente o etanol, Chávez liderava um grande ato em Buenos Aires contra a presença de Bush na região."Estaria sendo usada a terra fértil e a água que temos disponível para produzir para os veículos dos ricos", afirmou Chávez, criticando o acordo Brasil-Estados Unidos.Tentando ofuscar a viagem do presidente dos EUA, Chávez passou depois por Bolívia, Nicarágua, Jamaica e Haiti, países em que teve recepção bastante acolhedora e com os quais renovou sua "diplomacia petroleira".A recepção a Chávez, que visitou favelas miseráveis, contrastou com os protestos, em alguns casos violentos, contra o presidente norte-americano.O líder venezuelano, em sua estadia na Jamaica, disse também que "assim que puder" falaria com Lula para desaconselhá-lo sobre o programa de etanol do Brasil, um orgulho do governo que conseguiu, após três décadas, fazer com que a maioria dos automóveis vendidos no país tenha motores adaptados para biocombustíveis."Lula deverá seguir lidando de maneira pragmática com Chávez", disse Christopher Garman, analista da consultora política Eurasia Group.Apesar das críticas de Chávez, Lula sempre defendeu o líder venezuelano, inclusive diante de Bush, expressando que o Brasil respeita "as opções políticas" de cada país e destacando o caráter democrático de todos os países sul-americanos, sem exceções.Lula ainda deu forte impulso à entrada da Venezuela no Mercosul, somando-se a Argentina, Paraguai, Brasil e Uruguai, em um fórum comercial e político sobre o qual Chávez depois se pronunciou criticamente.Ira contra astúciaBush, que encerrou na terça-feira, no México, a turnê em que visitou Brasil, Uruguai, Colômbia e Guatemala, tentou reforçar as relações fragilizadas entre Washington e a América Latina, que foi relegada a uma posição pouco importante na política externa norte-americana depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.Para o vice-chanceler argentino Andrés Cisneros, a ausência da região na agenda dos países desenvolvidos provoca duas reações, a ira e a astúcia, das quais Chávez e Lula seriam os dois principais expoentes."Chávez e o neopopulismo de pseudo-esquerda na Bolívia, Equador e Argentina privilegiam a descarga emotiva, antiimperialista, que apela ao ressentimento para captar votos na política interna", comentou Cisneros.Por outro lado, os líderes de Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai e Peru "não caem na tentação da catarse", discutem com os poderosos e geram "espaços de cooperação e crescimento com o mundo, obtendo benefícios".O trajeto de Bush, que passou pelos países mais próximos de Washington, também demarcou as zonas de influência de Chávez, que, apesar de sua retórica anti-EUA, mantém estreitos vínculos comerciais com o "império" por causa do petróleo."A influência de Chávez é maior nos países onde há demanda de políticas populistas e heterodoxas, claramente na Bolívia e no Equador, países muito pobres nos quais o financiamento venezuelano é sempre importante", avaliou Garman.

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