Benjamin Norman/The New York Times
Benjamin Norman/The New York Times

Viagens a Cuba causam conflito de geração para cubano-americanos

Desde 2009, famílias imigrantes têm autorização de ir a Cuba, mas agora pensam mais seriamente no assunto; no entanto, em muitos casos a questão de visitar ou não Cuba é complicada e cria discórdia entre membros de diferentes gerações

Alyson Krueger / The New York Times, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2016 | 16h07

NOVA YORK - No último Natal, Michael e Gisel Davila, casal cubano-americano que vive no Queens, em Nova York, conversavam com a mãe dela, Maria C. Castillo, quando a visitavam em Miami. Era uma conversa casual sobre férias, trabalho e o tempo, até que Gisel, de 30 anos, mencionou que ela e o marido estavam pensando em fazer uma viagem de alguns dias para Cuba. "De jeito nenhum! Vocês não podem ir", disse sua mãe. 

"Não foi bom. Acredito seriamente que se eu for a Cuba com minha esposa, minha sogra nunca iria nos perdoar", disse Michael Davila, de 33 anos.

Para a maioria da primeira geração de cubano-americanos, a ilha de Cuba existe apenas como um ideal mitológico: um lugar cuja cultura, linguagem e alimentos poderiam ser recriados no exílio, mas a terra em si só poderia ser sentida através de histórias contadas por pais e avós imigrantes.

Porém agora, graças à restauração das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, o acesso à ilha foi facilitado e se tornou um destino da moda, e empresas como o Google e a Chanel realizam eventos sofisticados nas ruas de Havana.

Desde 2009, as famílias imigrantes têm autorização de ir a Cuba, mas agora pensam mais seriamente no assunto, que está constantemente no noticiário, e seus amigos e colegas não cubanos a visitam cada vez mais. No entanto, nas famílias de imigrantes, a questão de visitar ou não Cuba é complicada e, em alguns casos, cria discórdia entre membros de diferentes gerações.

Pais e avós que viveram a revolução comunista liderada por Fidel Castro são tomados por uma revolta ao pensar em seus entes queridos pisando em solo cubano ainda sob o governo de Castro e de seu irmão Raúl. Membros das gerações mais jovens, que nasceram nos EUA querem ver por si mesmos o país que, com suas histórias, moldou suas identidades.

"Imagine crescer ouvindo falar sobre isso e nunca ser capaz de chegar lá. É como a fruta que está na sua frente, mas que você não pode tocar", disse Davila. O casal está ansioso para conhecer a ilha, e Davila se irrita ao ver tantos viajantes sem uma conexão étnica com Cuba conhecendo o país de sua família antes dele próprio.

Mas eles também levam a sério a oposição de Maria. Como muitos que escaparam do governo de Fidel Castro na década de 1960 e 1970, deixando todos seus bens para trás, ela se revolta com a ideia de que seus parentes deem legitimidade e apoio financeiro ao país que ainda está sob a administração dos Castro.

"Não vejo por que ela tem que ir", disse Maria sobre sua filha. "Nada mudou. O dinheiro não vai para o povo. Tudo volta para o governo." Ela diz sentir tanta revolta em relação a Castro que se recusa a pronunciar o nome dele.

Do lado do Davila, suas tias, tios e primos se opõem aos parentes que visitam a ilha. Em um recente jantar familiar em que havia porco assado, banana frita, arroz e feijão, algumas pessoas se referiram ao irmão de Davila, George, advogado de 37 anos em Miami, como "comunista" por ter visitado Cuba três vezes. "Jogaram até comida um no outro", disse Davila.

"Quando descobriram que eu iria, as irmãs do meu pai disseram: 'Por que você vai? Você vai ser preso. Você vai dar dólares para o governo. Você vai passar por uma lavagem cerebral comunista'", disse George.

Maria Davila, mãe de George e Michael, foi repreendida por amigos e parentes por permitir a viagem de George. "Disseram que eu e meu marido éramos loucos comunistas. E eu disse: 'Não! Queremos que eles conheçam o que tínhamos lá e vejam o outro lado do mundo'."

O encorajamento de Maria às viagens dos filhos a coloca entre uma minoria de pais permissivos. Mas nem todos os filhos adultos aceitam as advertências.

Miranda Hernandez, estudante de 20 anos da Universidade da Califórnia, Berkeley, disse que se sentia um tanto nervosa com a possível reação de sua família caso ela considerasse uma visita a Cuba. "Quando falavam sobre Cuba, parecia algo como a Coreia do Norte com praias bonitas. Cresci ouvindo que não tinha que ir para lá."

Mas este ano, ela decidiu ir, apesar das objeções. Buscou a CubaOne, uma nova organização sem fins lucrativos que envia os cubano-americanos de 20 a 30 anos para a ilha.

Ela tem como base o Birthright Israel, grupo que fornece viagens educativas para Israel para jovens judeus com idades entre 18 e 26. CubaOne recebeu 1,1 mil inscrições para as 40 vagas disponíveis este ano, de acordo com um dos fundadores, Giancarlo Sopo, de 33 anos.

Miranda participou da viagem inaugural da CubaOne em junho deste ano. Ela viu o apartamento no bairro Luyanó, em Havana, onde sua mãe cresceu e o hospital em que nasceu. 

Ela também conheceu seu tio-avô, primos de segundo grau e primos de terceiro grau, gêmeos de 16 anos que, para sua surpresa, ouvem a mesma música que os adolescentes dos EUA. Miranda compartilhou suas histórias cubanas e fotografias de sua família cubano-americana. "Quando os encontrei, era como se os conhecesse toda a minha vida. Foi surreal", disse ela.

Steven Andrew Garcia, fotógrafo e diretor de vídeos em Los Angeles, também participou da viagem da CubaOne. Seu pai não ficou feliz. Como muitos exilados, o pai de Garcia é profundamente desconfiado do governo cubano e temia pela segurança do filho.

"Meu pai perguntou quem estava financiando e coordenando a viagem", disse Garcia, de 29 anos. Quando deixou claro que havia tomado a decisão e pretendia ir, seu pai lhe pediu para ter cuidado, dizendo: "Apenas fique com o grupo e não se perca".

Vanessa Garcia, hoje escritora de 37 anos de idade (que não é parente de Steven Andrew Garcia), ficou sabendo da maneira mais difícil que sua mãe havia implicado com sua viagem para Cuba. Em 2009, aproveitando a nova lei que permitia que cubano-americanos com parentes em Cuba visitassem a ilha, Vanessa comprou uma passagem de avião para Havana com sua irmã e então contou à sua mãe, Jackie Diaz-Sampol, sobre a viagem que elas iriam fazer em algumas semanas.

"Ela ficou muito vermelha e uma veia saltou na sua cabeça", disse Vanessa sobre sua mãe. "E ela disse: 'Eu vou ter um enfarte. Você vai matar sua mãe'. Rasguei nossas passagens, mesmo depois de termos pago US$500 cada uma - e elas não eram reembolsáveis - e as joguei no vaso sanitário. Não poderia fazer isso com minha mãe."

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