Michael Gruber / AP
Michael Gruber / AP

Vice-chanceler da Áustria renuncia após escândalo

Anúncio foi feito após imprensa local divulgar um vídeo no qual ele promete à suposta sobrinha de um oligarca russo contratos públicos em troca de verbas para a campanha eleitoral

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2019 | 15h18

VIENA - O vice-chanceler de extrema direita da Áustria, Heinz-Christian Strache, anunciou neste sábado, 18, sua renúncia após a imprensa local divulgar um vídeo no qual ele promete à suposta sobrinha de um oligarca russo contratos públicos em troca de verbas para a campanha eleitoral.

"Entreguei ao chanceler Sebastian Kurz minha renúncia como vice-chanceler e ele a aceitou", disse Strache, de 49 anos, em entrevista coletiva em Viena. O anúncio foi organizado às pressas para tentar diminuir o impacto de um escândalo que também ameaça a credibilidade do governo de Sebastian Kurz, que anunciou também neste sábado eleições antecipadas no país. "Sugeri ao presidente da República que sejam convocadas eleições o quanto antes", afirmou.

Strache também informou que deixou a liderança do FPÖ, o partido que chefiava desde 2005. "Eu cometi um erro e não quero que isso seja um pretexto para enfraquecer a coalizão formada em dezembro de 2017 com os conservadores de Kurz", acrescentou Strache, que denunciou um "ataque político direcionado" e alegou não ter cometido "irregularidades".

O presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, classificou como "vergonha" e "falta de respeito" à população o escândalo. "São imagens vergonhosas, uma falta de respeito. Não posso tolerar", disse. De acordo com o governante, "representantes da República quebraram a confiança depositada neles".

"A situação é pouco clara agora, mas nesta situação é a minha responsabilidade fazer com que o nosso país mantenha a calma e a estabilidade nas próximos semanas", comentou. Van der Bellen explicou que a partir deste domingo, 19, definirá os próximos passos "para fazer o necessário para restabelecer a confiança" até as eleições antecipadas, que provavelmente ocorrerão em meados de setembro.

"Aquele que for eleito (pelo povo) deve assumir o cargo com humildade. Precisamos de uma reconstrução da confiança, e isso só pode ser conseguido com novas eleições", opinou.

O vídeo

A revista alemã Der Spiegel e o jornal Sueddeutsche Zeitung publicaram na sexta-feira, 17, em seus sites fragmentos de uma gravação com câmera oculta de uma reunião que teria acontecido meses antes das eleições parlamentares de 2017 na Áustria, nas quais o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) chegou ao poder.

Nas imagens aparecem o vice-chanceler Strache e Johann Gudenus, líder do grupo parlamentar FPÖ, conversando com uma mulher que afirma ser sobrinha de um oligarca russo sobre como investir dinheiro na Áustria, especificamente para controlar o jornal de maior tiragem do país, o Krone Zeitung.

A conversa envolve principalmente a participação acionária no poderoso jornal austríaco. Strache sugere que, sob uma nova direção, o Krone poderia ajudar o FPÖ em sua campanha eleitoral. Também diz à mulher que seu grupo poderá ter acesso a contratos públicos. "Ela terá todos os contratos públicos atualmente com Strabag", um importante grupo austríaco de construção, diz o líder do FPÖ na gravação.

Strache diz que não haverá resistência na redação do Kronen Zeitung porque "os jornalistas são os maiores prostituídos do planeta". Também explica que quer "construir uma paisagem midiática como a de (Viktor) Orbán", na Hungria. Neste país, o premiê é criticado por ter atacado o pluralismo da imprensa.

A reunião, realizada na ilha espanhola de Ibiza, foi uma armadilha para pegar o líder do FPÖ, segundo a imprensa alemã, que não sabe quem montou a operação. Strache admitiu que participou da reunião, mas negou que tenha cometido qualquer crime.

Neste sábado, Strache denunciou um golpe "pérfido" e ressaltou que essa reunião não teve prosseguimento. No entanto, ele admitiu ter "tido uma atitude típica machista causada pelo álcool" e pediu desculpas à sua mulher, a seu partido e a Kurz, dizendo que se comportou "como um adolescente" por não controlar suas palavras./AFP e EFE.

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