Travis Dove/The New York Times
Travis Dove/The New York Times

Vice de Biden conta com apoio de ‘irmandade’ de mulheres negras

Grupo do qual Kamala Harris faz parte se organiza para incentivar que elas compareçam às urnas 

Beatriz Bulla / Enviada Especial , O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00
Atualizado 25 de outubro de 2020 | 21h09

ATLANTA - Quando Kamala Harris foi escolhida por Joe Biden como parceira de chapa, a coreógrafa Maisha Land, de 46 anos, reuniu um grupo de mulheres para mobilizar eleitores este ano. Ela e Kamala têm algo em comum: as duas pertencem à mesma irmandade – tipo de associação tradicional de mulheres nas universidades americanas, com especial força entre as negras. 

Desde o século 18, os estudantes de universidades nos EUA começaram a se organizar em associações. Para fazer parte das fraternidades, os alunos pagam e dedicam parte do tempo às atividades do grupo. Em troca, têm acesso a uma rede de apoio e, em alguns casos, moradia durante a vida universitária. Mas mulheres e negros estavam excluídos de boa parte das associações. 

Em 1850, elas começaram a criar as próprias fraternidades, que receberam o nome de irmandades, em uma época em que as mulheres eram minoria no ensino superior. Em 1906, foi a vez de alunos negros criarem sua primeira organização e, dois anos depois, foi fundada a primeira irmandade de alunas negras, a Alpha Kappa Alpha (AKA), da qual Maisha e Kamala fazem parte.

“Família é minha amada Alpha Kappa Alpha, nossos Nove Divinos, e meus irmãos e irmãs de HBCU (sigla para universidades historicamente negras nos EUA)”, disse Kamala, em discurso no qual aceitou a indicação a vice. Ela entrou na AKA durante os estudos na Howard University, em 1986, e é hoje uma das 300 mil integrantes do grupo.

As nove fraternidades e irmandades de negros mais relevantes nos EUA são conhecidas como “Nove Divinos”, ou apenas D9, e reúnem cerca de 1 milhão de pessoas. O poder informal exercido por esses grupos é visto como um motor na campanha de Biden. 

Dona de um estúdio de dança em Atlanta, Maisha Land decidiu organizar mulheres para criar um vídeo que estimule os eleitores a votar. “Essas organizações estão focadas no serviço à comunidade e na promoção de mulheres e comunidades negras em todo o mundo. Queremos encorajar os membros da comunidade a sair e votar. É isso que estamos fazendo”, afirma Maisha. 


Nascidas da exclusão, as organizações de alunos e alunas negros passaram a estar diretamente ligadas aos movimentos pelos direitos civis americanos. Desde a escolha de Kamala para a chapa presidencial, o Comitê Nacional Democrata começou a receber doações com o mesmo valor: US$ 19,08. O número é a referência ao ano de criação da AKA, 1908. Segundo o jornal The Washington Post, até o início de outubro os democratas haviam recebido mais de 14 mil doações neste valor, com total aproximado de US$ 275 mil das "irmãs" de Kamala.

Primeira mulher negra a concorrer à vice-presidência por um grande partido nos EUA, Kamala tem usado a ligação com o movimento negro desde a universidade como um ativo de campanha. Na sexta-feira, em campanha na Geórgia, a candidata a vice democrata se reuniu com 17 líderes de HBCU, a reunião de universidades criadas para negros na época que leis de segregação racial limitavam o acesso superior aos brancos.

Um dos problemas dos democratas em 2016 foi a queda no comparecimento dos eleitores negros nas urnas. Neste ano, a campanha de Biden precisa garantir maior apoio dos negros. Maisha Land diz que as organizações são apartidárias. "Nosso trabalho é garantir que nossas comunidades estejam engajadas", afirma Maisha, mas emenda:  "Se estamos orgulhosas de ter uma integrante concorrendo? Absolutamente."

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