Vice de Lugo tenta conter especulação sobre sucessão

Presidente paraguaio passa por exames em São Paulo e Franco, com quem tem tensa relação, assume o poder

Ariel Palacios CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, chegou ontem a São Paulo para ser submetido a uma série de exames no Hospital Sírio-Libanês e verificação da dimensão de seu câncer linfático, anunciado publicamente na semana passada, quando os médicos em Assunção removeram um linfoma de sua virilha.

No fim de semana, a preocupação no âmbito político em Assunção aumentou depois que o governo admitiu a existência de outro linfoma na região do tórax. O vice-presidente Federico Franco - um conservador com quem Lugo, com origens na esquerda, possui uma tensa relação - assumiu a presidência interinamente.

Franco é um dos líderes do conservador Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), que na eleição presidencial de 2008 obteve 75% do total de votos de Lugo (que não contava com partido próprio). O PLRA também é a principal base da coalizão do governo Lugo, a Aliança Patriótica para a Mudança no Parlamento. Mas Franco reclama que, apesar do peso de seu partido, não obteve poder suficiente no governo.

No ano passado, em meio ao escândalo dos filhos não reconhecidos do ex-bispo, Franco entusiasmou-se com a possibilidade de ocupar a presidência e disse que estava pronto caso Lugo fosse afastado por impeachment.

Ontem de manhã, antes da partida de Lugo, Franco reduziu os receios do presidente. "É lamentável falar sobre sucessão nesta hora", disse, acrescentando que, apesar do câncer, o ânimo de Lugo é muito sólido.

O chefe da casal civil, Miguel López Perito, braço direito de Lugo, criticou as especulações sobre uma eventual sucessão. Segundo ele, "o presidente terá seu sucessor, mas somente em 15 de agosto de 2013".

As diversas forças políticas no Paraguai já começam a especular sobre um cenário no qual Lugo esteja fora do poder. Uma pesquisa realizada pelo jornal ABC indicou que 51% dos entrevistados consideram que o estado de saúde de Lugo pode causar instabilidade política. Outros 45% consideram que a saúde presidencial não afetará o cenário de poder e 4% não têm opinião formada.

Lugo tomou posse em 2008. Os mandatos presidenciais no Paraguai são de cinco anos. Caso Lugo renuncie ao cargo ou morra antes de completar os primeiros três anos de mandato, seriam convocadas novas eleições. Franco só poderia tornar-se presidente automaticamente - e completar o mandato de Lugo - caso a ausência do presidente ocorra após três anos de governo. De todas formas, Franco desponta como o principal candidato para as eleições de 2013.

Exames. Em São Paulo, Lugo passará por uma tomografia, exames de sangue e uma biópsia da medula, entre outros testes. O médico pessoal de Lugo, Néstor Martínez, afirmou que hoje à tarde receberá um relatório preliminar. O tratamento médico, segundo especialistas que acompanham o presidente paraguaio, não deve impedir que Lugo continue exercendo o poder até o final de seu mandato.

PARA ENTENDER

Fernando Lugo completará dois anos de governo no domingo. Ele chegou ao poder após derrotar o Partido Colorado, que havia estado 61 anos no poder. Segundo pesquisa, somente 35,2% dos paraguaios consideram que a gestão de Lugo foi "boa ou muito boa". Outros 41,9% a definem como "regular" e 22,9%, como "ruim".

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