Vice do Uruguai quer reverter entrada de Caracas no Mercosul

Segundo Astori, seu país foi à cúpula disposto a rejeitar o ingresso "por essa via" e no dia 31 seria tomada a decisão final

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2012 | 03h05

O socialista Danilo Astori, vice-presidente do Uruguai, declarou ontem que não aprova a decisão do Mercosul de aceitar a entrada da Venezuela como quinto sócio pleno do bloco do Cone Sul. "Não concordo com essa decisão, pois se trata de uma grande agressão institucional para o Mercosul. É a maior e mais grave ferida institucional em 21 anos do bloco."

A entrada do país caribenho foi anunciada na sexta-feira pela presidente Dilma Rousseff e seus colegas Cristina Kirchner, da Argentina, e José Mujica, do Uruguai, durante cúpula do Mercosul na cidade de Mendoza, na Argentina.

O ingresso venezuelano só foi possível graças à suspensão temporária do Paraguai, punido pelo Mercosul por causa do controvertido processo de impeachment que destituiu Fernando Lugo da presidência no dia 22.

"Espero que algo possa ser feito para reverter isso (a entrada da Venezuela). Caso essa possibilidade exista, acho que deveria ser explorada", disse Astori. Ele afirmou ao jornal uruguaio El Observador que o Uruguai foi à cúpula de Mendoza com a posição contrária à entrada da Venezuela "por esta via". Mas, segundo ele, "as coisas ocorreram de outra forma ali".

Na cúpula de Mendoza a presidente Cristina destacou que a entrada da Venezuela seria oficializada em uma reunião no Rio de Janeiro no dia 31. Mas, segundo Astori, o Uruguai propôs em Mendoza que nessa data o Mercosul tomasse a decisão final.

Ontem à tarde, a senadora Lucía Topolanski, mulher do presidente Mujica, acrescentou mais confusão à situação ao lembrar que o Parlamento uruguaio "aprovou há muito tempo a entrada da Venezuela no Mercosul" e afirmar que o governo continuará nessa linha.

A entrada da Venezuela no bloco foi solicitada pelo presidente Hugo Chávez em 2006. De lá para cá, os Parlamentos do Brasil, Argentina e Uruguai aprovaram seu ingresso. No entanto, o Senado do quarto país fundador do Mercosul, o Paraguai, rejeitava a inclusão do país caribenho.

Por fim, graças à suspensão temporária do Paraguai do Mercosul, na cúpula de Mendoza, a Venezuela foi aceita. A decisão foi tomada durante reunião dos presidentes Mujica, Cristina e Dilma.

Na segunda-feira, o chanceler uruguaio, Luis Almagro, declarou que o Uruguai tinha se manifestado contra a entrada abrupta da Venezuela "nestas circunstâncias". Segundo ele, a decisão de apresentar a entrada da Venezuela começou "com um pedido da presidente Dilma. A iniciativa foi brasileira. O posicionamento do Brasil foi decisivo nessa história". Os governos de Brasília e de Buenos Aires desmentiram diplomaticamente Almagro e deixaram claro que houve consenso total na aprovação da entrada da Venezuela.

Cláudio Paolillo, colunista político do semanário uruguaio Búsqueda, disse ao Estado, por telefone: "O governo uruguaio lidou da pior forma possível com um assunto que é grave para aquilo que resta do Mercosul".

Segundo Paolillo, "houve falta de respeito dos países do Mercosul por um dos sócios, o Paraguai. E não foi séria a forma irregular com a qual aceitam outros sócios. Isso talvez seja o golpe de misericórdia do Mercosul. O novo sócio é administrado por um governo acusado de violar os direitos humanos e de ignorar a liberdade e separação dos poderes."

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