Vice-presidente argentino depõe sobre compra ilegal de carro

Boudou, processado por corrupção, alegou inocência e diz que ilegalidades foram cometidas por despachante que havia contratado

Ariel Palacios, correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 13h02

BUENOS AIRES - O vice-presidente argentino, Amado Boudou, compareceu nesta quarta-feira, 23, ao edifício dos tribunais em Retiro para prestar depoimento sobre a acusação de falsificação de documentos para a compra de um automóvel de luxo nos anos 90.

Boudou entrou pela garagem, acompanhado por um forte esquema de segurança e ficou por 15 minutos no local. O vice entregou ao juiz federal Cláudio Bonadío seu depoimento por escrito e foi embora.

O promotor Guillermo Marijuan declarou que não faria declarações, pois ainda não havia lido o depoimento entregue por Boudou.

Na última ocasião que compareceu aos tribunais, em junho, Boudou contou com a presença ostensiva de militantes kirchneristas para dar-lhe respaldo. No entanto, nesta quarta nenhum grupo concentrou-se na frente dos tribunais. Analistas interpretaram a ausência como um sinal do crescente isolamento do vice dentro do governo Kirchner.

Boudou está na mira do juiz Bonadío pela suspeita de ter alterado a data da compra do carro Honda CRX conversível com o objetivo de não dividir o bem com sua ex-mulher Daniela Andriuolo durante o processo de divórcio. Boudou comprou o automóvel em 1993 e divorciou-se no mesmo ano.

Mas, nos documentos a data da compra é outubro de 1992, quando o carro importando ainda estava em um navio proveniente do Japão rumo ao porto de Buenos Aires. Boudou, no depoimento que entregou por escrito, afirma que é inocente e coloca a culpa das irregularidades no despachante que havia contratado para comprar o veículo.

O maior problema que o vice enfrenta na Justiça é seu processo, iniciado no dia 27 de junho pelo juiz federal Ariel Lijo, afirmando que ele foi subornado com a entrega de 70% das ações da gráfica Ciccone.

Em troca do suborno Boudou teria usado sua influência para esquivar dívidas que a empresa tinha com o Fisco. Além disso, para obter um contrato terceirizado de impressão de notas de 100 pesos, o argentino - que na época era ministro da Economia - cancelou o plano de compras de maquinaria moderna da Casa da Moeda para aumentar sua capacidade de impressão de cédulas.

O juiz Lijo considera que o diretor da Ciccone, Alejandro Vanderbroele, era na realidade o testa-de-ferro de Boudou. O vice afirma que não conhece o empresário, embora a Justiça tenha descoberto que Vanderbroele paga o condomínio e a TV a cabo de um apartamento de Boudou.

O político transformou-se no primeiro vice-presidente da história da Argentina a ser processado na Justiça. Boudou, segundo várias pesquisas, é o mais impopular dos integrantes da administração Kirchner.

Nos últimos meses, governadores e parlamentares evitam aparecer ao lado dele em fotografias. Os partidos da oposição pedem o julgamento político de Boudou.

O vice, que há quatro anos era chamado pela presidente Cristina de "esse rapaz estupendo", também acumula investigações na Justiça por suspeitas de enriquecimento ilícito e tráfico de influências.

Boudou , roqueiro amador nas horas vagas e ex-DJ, afirma que existe semelhança entre o rock e a forma da presidente Cristina Kirchner fazer política. "Este é um governo muito rock 'n roll, pois tem esse espírito de atrever-se a mudar as coisas que não gosta."

O político conquistou o casal Kirchner em 2008, época na qual comandava o sistema previdenciário. Na ocasião propôs a reestatização das aposentadorias.

Em 2009, Cristina o designou ministro da Economia. Quando Cristina se candidatou à reeleição presidencial, escolheu Boudou como colega de chapa. Ele começou a ser preparado para ser seu sucessor em 2015.

Boudou, um ex-militante da União de Centro Democrático, a "UceDé", principal reduto do neoliberalismo nativo nos anos 80 e 90, não é bem visto pela ala tradicional do peronismo, que o considera um "arrivista". No entanto, converteu-se rapidamente ao "nacionalismo popular" dos Kirchners, defendendo a intervenção na economia e as medida protecionistas.

A situação mudiu com o surgimento das denúncias do caso Ciccone. O vice, sem contar com força política própria, deixou de ser considerado presidenciável e transformou-se em um peso morto.

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