REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Vice da Venezuela descarta referendo contra Maduro durante estado de exceção

Aristóbulo Istúriz afirmou que estratégia visa bloquear o caminho para a consulta promovida pela oposição. Líder opositor advertiu para uma implosão social se o governo tentar impedir a realização do referendo revogatório ainda em 2016

O Estado de S. Paulo

16 Maio 2016 | 08h29

CARACAS - O governo venezuelano desconsiderou a possibilidade de que o presidente Nicolás Maduro seja revogado mediante referendo, após decretar um estado de exceção que, segundo analistas, busca bloquear o caminho para a consulta promovida pela oposição. "Aqui Maduro não vai sair por referendo", disse no domingo o vice-presidente da Venezuela, Aristóbulo Istúriz.

No sábado, o líder opositor Henrique Capriles advertiu sobre uma implosão social, se o governo decidir impedir a realização do referendo revogatório contra Maduro ainda este ano. De acordo com a empresa Venebarómetro, a gestão de Maduro é reprovada por 7 em cada 10 venezuelanos.

O presidente ordenou que as fábricas improdutivas sejam tomadas, estratégia que analistas atribuem a um líder encurralado. Além disso, Maduro também decretou a detenção dos empresários que, segundo ele, tentam desestabilizar o governo. Essa foi a primeira medida de um estado de exceção que ficará em vigor por três meses e que será prorrogado sucessivamente até 2017.

"Fábrica parada, fábrica entregue ao povo! (...) Vocês vão me ajudar a recuperar todas as fábricas paralisadas pela burguesia", declarou diante de milhares de partidários.

A Venezuela está afogada em uma profunda crise agravada pelo colapso das receitas do petróleo, com a inflação mais alta do mundo (180,9%, em 2015) e com uma queda de 5,7% do PIB em 2015. No país com as maiores reservas de petróleo do mundo e dependente das importações, esse quadro implica a escassez de mais de dois terços dos alimentos básicos e dos remédios, cortes diários de água e de energia elétrica e uma violência em escalada.

Indústrias. Quatro fábricas cervejeiras da Polar - a maior produtora de alimentos e de bebidas do país - estão na mira do governo. No dia 30 de abril, essas unidades paralisaram suas operações por falta de divisas para importar insumos, dentro do severo controle de câmbio imposto em 2003.

A Polar cobre 80% do mercado cervejeiro, e suas marcas praticamente desapareceram dos supermercados. Depois disso, os preços da concorrência duplicaram em duas semanas. Maduro acusa o presidente do grupo empresarial, Lorenzo Mendoza, de estar no comando de uma "guerra econômica" para causar desabastecimento e provocar sua queda.

Diante desse contexto político, não é apenas a Polar que poderá ser tomada. Atualmente, os empresários venezuelanos asseguram trabalhar a 43,8% de sua capacidade instalada, em razão de dívidas com fornecedores internacionais, falta de insumos e um severo controle de preços que afeta a estrutura de custos.

"Estamos falando de 25% de todo o parque industrial venezuelano" que não conta com divisas para reativar operações e poderá ser afetado pela medida, advertiu o deputado opositor e economista José Guerra.

O legislador assegurou que essa medida é "o caminho para o desastre" e contrairá a economia ainda mais. "Parece que a decisão oficial é deixar a indústria nacional morrer com o consequente empobrecimento dos venezuelanos", declarou o presidente da Confederação Venezuelana das Indústrias (Conindustria), Juan Pablo Olalquiaga.

Para o analista Benigno Alarcón, a tomada das fábricas seria uma advertência aos empresários do "destino que teriam", caso parassem as operações. Segundo ele, também estariam envolvidos grupos econômicos que apoiam o governo e buscariam "ficar com os ativos" sob a promessa de colocá-los para produzir.

Ameaça. Maduro ainda ordenou que no sábado sejam realizados exercícios militares para enfrentar o que denunciou como uma ameaça externa, referindo-se aos EUA, com a qual justifica o estado de exceção.

Analistas consideram que o estado de exceção é parte da estratégia do presidente para evitar a realização, neste ano, de um referendo revogatório promovido pela opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD).

"O governo estaria planejando armar o marco legal para liberar as mãos dos militares e poder reprimir uma manifestação nas ruas a favor do (referendo) revogatório", declarou Alarcón. Ele lembrou que, geralmente, essas medidas restringem o direito de protesto e autorizam detenções preventivas sem ordem judicial.

O presidente do Parlamento, Henry Ramos Allup, advertiu em sua conta no Twitter, que o governo se prepara para convocar o referendo em fevereiro de 2017. Maduro já declarou, por sua vez, que essa consulta não conta com viabilidade política. /AFP

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