Vice-presidente do Banco Central da Rússia é morto em atentado

O vice-presidente do Banco Central da Rússia, Andrei Kozlov, foi assassinado com tiros na cabeça e no pescoço por homens de identidade desconhecida. Kozlov liderava uma campanha para acabar com a lavagem de dinheiro e a corrupção no sistema bancário do país. Sua morte traz à lembrança o caos que dominou as corporações russas na década de 90, após o colapso da União Soviética, quando o crime organizado mantinha estreitas relações com o mundo dos negócios. Kozlov, de 41 anos, foi alvejado na noite de quarta-feira, nas proximidades de uma quadra esportiva onde havia participado de um jogo de confraternização com funcionários do banco. Ele morreu algumas horas depois, na manhã de quinta-feira, durante uma cirurgia de emergência num hospital local. O motorista do carro de Kozlov também morreu no episódio.Segundo a Promotoria Geral russa, há indícios de que o crime tenha sido encomendado. As armas foram deixadas no local do crime, algo comum em assassinatos de aluguel. Os principais suspeitos são os donos de instituições financeiras investigadas por Kozlov.Responsável pela supervisão das instituições financeiras do país, Kozlov já havia fechado dezenas de bancos irregulares. No início do mês, propôs uma medida para evitar que empresários acusados de lavagem de dinheiro pudessem abrir novos negócios no setor bancário. Ele era funcionário de carreira e estava desde os 24 anos no Banco Central russo. Desde 2002 ocupava o cargo de vice-presidente. "O assassinato de Kozlov é um grande desafio às autoridades russas", disse o economista Anatoly Chubais, mentor das privatizações na Rússia e presidente da RAO Unified Energy Systems, empresa que produz a maior parte da energia elétrica consumida no país. "A resposta das autoridades deve ser firme e rápida".O vice-primeiro-ministro russo, Alexandr Zhukov, admite a hipótese de que o atentado esteja ligado à política desenvolvida por Kozlov, que vinha cassando licenças de bancos pouco confiáveis. "É provável que tenha sido isso, embora eu não tenha informação sobre detalhes", disse Zhukov. Neste ano, o Banco Central da Rússia retirou a licença de 44 entidades bancárias por atividades ilícitas. Kozlov chefiava o setor de supervisão de sistema bancário. Recentemente, ele tinha proposto que executivos condenados por lavagem de dinheiro e delitos tributários fossem proibidos de trabalhar no setor pelo resto da vida.Profissional sérioVisto como um profissional sério e honesto, Kozlov recebeu destaque da revista americana BusinessWeek em 1997, numa matéria listando as maiores estrelas das finanças no mundo. A reportagem, que também citava o ex-presidente do Banco Central brasileiro, Gustavo Franco, apontava Kozlov como um dos responsáveis pelo processo de modernização da economia russa a partir do final da década de 90. O governo russo teme que o assassinato de um alto funcionário do Banco Central aumente a percepção entre os empresários estrangeiros de que investir na Rússia ainda é um negócio arriscado. "O assassinato de um executivo desse calibre mostra que ainda há um grande risco institucional na Rússia e coloca o país atrás de países instáveis da América Latina", disse Dmitry Golubkov, analista financeiro da corretora Aton. Graças ao programa de reformas que vem sendo implementado há 15 anos no país, o desempenho da economia russa é invejável. Nos últimos sete anos seu PIB cresceu a uma média de 6,4%, muito acima da média brasileira, por exemplo. A morte de Kozlov mostra, no entanto, que ainda há muito a fazer quando o assunto é a transparência das instituições do país. A corrupção é institucionalizada no governo e nas empresas, e clãs industriais-financeiros mantêm relações espúrias com o crime organizado. ViolênciaA violência contra empresários também é relativamente comum. No ano passado, o bancário Alexander Slesarev, sua mulher e filha foram mortos em um atentado aparentemente relacionado ao processo de falência dos dois bancos de Slesarev. Em 2004, o editor da revista Forbes na Rússia, Paul Klebnikov, foi assassinado com quatro tiros. Na época, foram levantadas suspeitas de que o crime poderia estar relacionado à publicação de uma matéria com o ranking do 100 homens mais ricos do país. Os riscos enfrentados pelos homens de negócios aumentaram ainda mais nos últimos anos, conforme o governo de Vladimir Putin, fortalecido pela alta dos preços do petróleo, resolveu fazer as coisas a seu modo.Em 2003, o magnata Mikhail Khodorkovski, então dono da petrolífera Yukos e um dos mais ricos empresários do país, foi preso acusado de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro e hoje cumpre pena numa prisão na Sibéria. Na época, as ambições políticas de Khodorkovski haviam colocado o bilionário em rota de colisão com Putin. São grandes as suspeitas de que a rivalidade com o presidente tenha influenciado - ou até ditado - a sentença.Texto atualizado às 20h25

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