EFE
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Vice-presidente do Equador ganha fôlego político após manejo de crise 

Com 37 anos e no cargo desde dezembro de 2018, Otto Sonnenholzner tem na resposta ao drama vivido em sua cidade natal a possibilidade de se fortalecer politicamente

Fernanda Simas , O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 05h00

QUITO - “Sofremos uma forte deterioração de nossa imagem internacional e temos visto imagens que nunca deveriam ter ocorrido. Por isso, como seu servidor público, eu lhes peço desculpas. Quero transmitir meus mais sinceros pêsames a todas essas famílias que perderam um ente querido nesta semana”. Essas foram as palavras do vice-presidente do Equador, Otto Sonnenholzner, no dia 4 de abril, ao pedir desculpas pelas cenas trágicas vistas em Guayaquil, em meio à crise do coronavírus. 

Com 37 anos e no cargo desde dezembro de 2018, Sonnenholzner tem na resposta ao drama vivido em sua cidade natal a possibilidade de se fortalecer politicamente, levando em conta que em 2021 ocorre a eleição presidencial no Equador.

“Minha impressão é que ele percebeu que tem um espaço politicamente aberto. Ele é jovem, sabe se comunicar - o que na atual situação representa uma grande vantagem -, fala bem, se posiciona bem. Ele aproveitou a situação para assumir os erros (da administração) e se cacifar politicamente”, avalia o coordenador do curso de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), Moisés Marques. 

“O vice não vem da política, vem da vida empresarial, de meios de comunicação. Junto com seu pai, conduzia programas de entrevistas na rádio. Então ele tinha muitos vínculos políticos, é uma pessoa de fácil trato, agradável. Com o presidente sendo da terceira idade e com uma deficiência essa era a situação natural, seria óbvio que ele (vice) assumiria esse papel”, explica o professor de Ciência Política da Flacso Santiago Basabe.

Mesmo tendo sido um dos primeiros líderes da América Latina a implementar medidas para retardar a disseminação do novo vírus, o presidente Lenín Moreno teve sua administração criticada por falhas no sistema de detecção da doença. Com 67 anos, Moreno faz parte do grupo de risco para a covid-19 e por isso atualmente não está na linha de frente do governo para lidar com a situação - diferente de outros líderes latino-americanos, por exemplo, Moreno nem mesmo realiza coletivas diárias para fornecer à população um balanço do coronavírus. 

Nesse contexto, Sonnenholzner se destaca, assume o papel de dianteira e lidera o Comitê de Operações de Emergência (COE), que lida com a crise de saúde. 

“O Lenín vem mal há um tempo. A última pesquisa mostrava ele com apenas 7% de popularidade, absurdamente baixa, 92% das pessoas achavam sua gestão muito ruim ou seja, ele meio que fica fora do jogo para 2021. Então apostar no vice pode ser uma forma de dar cara nova a um governo moribundo. Ele ficou fora, mas vai cacifando o vice, só é preciso tomar cuidado porque no Equador a história mostra que essa fidelidade nem sempre permanece”, afirma Marques. O atual presidente mesmo foi uma aposta do seu antecessor, Rafael Correa, mas passado algum tempo de seu governo, Moreno rompe com o ex-padrinho político e muda os rumos do governo. 

Sonnenholzner afirmou que está realizando visitas contínuas a casas de saúde da rede pública para verificar os equipamentos disponíveis e anunciou medidas para a região de Guayas, cuja capital é Guayaquil: disponibilização de 1.500 camas novas para a rede pública atender mais pacientes com a suspeita da covid-19.

O professor Marques ressalta que, apesar de o cenário indicar que o vice esteja assumindo um papel de protagonismo até mesmo como uma opção do governo, existe a possibilidade de ele romper com Moreno. “Ele pode eventualmente se distanciar de Lenín caso o presidente permaneça com o discurso de que o país tem problemas fiscais que precisam ser resolvidos, ou seja, colocando a economia em primeiro lugar”, diz Marques.

Basabe lembra que a ideia de Sonnenholzner ser candidato em 2021 surgiu no fim do ano passado, mas agora ganha força e ele age de forma desvinculada da imagem de Moreno. “Tenho a impressão que ele vai sair fortalecido desse problema porque não está diretamente vinculado ao presidente e consegue fazer uma agenda política própria.”

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