Vice sustenta que Chávez ‘caminha e dá ordens’ após 1ª conversa por telefone

Voz de presidente não é ouvida desde o dia 8, quando ele anunciou que passaria em Cuba pela quarta cirurgia contra um câncer

Associated Press,

25 de dezembro de 2012 | 22h50

O vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, disse ao canal governista VTV ter conversado durante 20 minutos por telefone com o presidente Hugo Chávez na véspera do Natal. Maduro afirmou que o líder bolivariano "caminha e dá ordens". É o primeiro relato de uma conversa entre os dois desde o dia 8, quando Chávez anunciou que faria em Cuba a quarta cirurgia contra um câncer pélvico em 19 meses. Foi sua última declaração pública.

"Recebi uma ligação do comandante Hugo Chávez de Havana. Estava caminhando, fazendo exercício", relatou Maduro à VTV perto da meia-noite de segunda-feira (madrugada de ontem em Brasília). "Me pediu que saudasse a todo o povo da Venezuela, em especial as crianças. E que sejamos moderados na celebração. De fato, por instruções precisas do comandante, só comerei uma hallaca (prato natalino com diversas carnes enroladas em folha de bananeira) esta noite", completou.

Além de esclarecer que o líder bolivariano estava de bom humor - "está fazendo frio em Cuba", teria dito -, Maduro relatou que o presidente de 58 anos deu ordens sobre temas sociais e queria saber sobre as obras do governo e as primeiras ações dos novos governadores chavistas.

O silêncio de um líder como Chávez, habituado à exposição em rádio, TV, jornais e internet - especialmente no Twitter -, mesmo após a vitória na eleição regional do dia 16 que deu ao chavismo 20 dos 23 governos estaduais, despertou dúvidas sobre a recuperação do bolivariano. E sobre suas condições de comparecer à cerimônia de posse, marcada para 10 de janeiro (mais informações nesta página).

Desde a operação, realizada dia 11, houve uma sequência quase diária de comunicados oficiais, lidos ora por Maduro, chanceler nomeado por Chávez como seu sucessor, ora pelo ministro da Comunicação, Ernesto Villegas. A regularidade dos boletins contrasta com o período de 19 meses em que o governo tratou a doença do presidente como um segredo de Estado.

Dois dias depois da operação, o governo venezuelano revelou que Chávez tivera um sangramento inesperado, que precisou ser contido pela equipe médica e tinha afetado os sinais vitais do presidente - pulso, temperatura e pressão. Maduro disse então que o pós-operatório seria complexo. Seguiram-se informações mais otimistas, ressaltando a recuperação da consciência e repetindo o quadro de evolução "lenta e progressiva" do presidente. No dia 17, Chávez sofreu uma infecção respiratória, depois da qual seu irmão Adán, governador do Estado de Barinas, viajou para Cuba com a família.

Incredulidade. O médico Gustavo Medrano, do Centro Médico de Caracas, recebeu com ceticismo o relato de Maduro. Medrano afirmou que, se Chávez está falando, significa que não permanece em uma unidade de tratamento intensivo, nem está sendo submetido a respiração por aparelhos, dois pontos até agora não esclarecidos pelas autoridades venezuelanas.

"Se ele foi operado em uma cirurgia de seis horas, se a intervenção foi na área pélvica e lhe extirparam algo, não creio que esteja caminhando", opinou Medrano. Após as declarações de Maduro na véspera de Natal, que acrescentou que Chávez "fazia exercícios", médicos consideraram improvável uma recuperação tão rápida.

"Sim, é possível porque tudo é possível, mas é pouco provável que em 24 horas uma pessoa que tinha uma discreta melhora... Bom, que já esteja caminhando. Provavelmente fizeram que sentasse na cama para dar dois passos. Mas daí a dizer que já está em fisioterapia de recuperação há uma grande distância", afirmou o oncologista Carlos Castro, diretor científico da Liga Colombiana contra o Câncer. Mesmo sem conhecer com detalhes o quadro de Chávez, ele considera difícil que o presidente consiga viajar para Caracas para a posse em 15 dias. "Esses pós-operatórios são longos, muito complicados, deve-se ter muito cuidado", disse o médico.

Estratégia. A provável ausência de Chávez na posse deu origem a especulações sobre a estratégia adotada pelo chavismo. O presidente da Assembleia, Diosdado Cabello, a quem caberia tomar posse e convocar nova eleição, afirmou que o início do novo mandato poderia ser adiado, uma vez que "a Constituição não poderia se sobrepor à vontade popular" - Chávez foi reeleito em outubro com 8 milhões de votos. A recusa de Cabello em assumir o poder e as declarações do ministro da Defesa, Diego Bellavia, de que o Exército está pronto para "seguir com a condução da revolução", ampliam temores de ruptura constitucional.

 

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