AP Photo/Vahid Salemi
AP Photo/Vahid Salemi

Vida de iranianos não melhorou com acordo nuclear

O que seria a salvação da economia do Irã não resolveu problemas do país

O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 20h55

Quando foi firmado, em 2015, o acordo nuclear entre Irã, EUA e outras potências parecia a tábua de salvação para uma economia em frangalhos. O desemprego beirava os 15% e a inflação era de 14% ao mês. Quase três anos depois, a situação não melhorou muito. A inflação mensal é de 8% e o desemprego está em 11%, segundo dados oficiais. Mas quase 30% dos jovens estão desempregados e a proliferação dos subempregos não ajudou .

+ Após saída de EUA de acordo, Europa tenta proteger negócios no Irã

Desde que as sanções mais duras ao país foram retiradas, em 2015, o único grande negócio de petróleo que o Irã acertou foi um acordo de exploração de US$ 5 bilhões com a francesa Total, mas seu futuro agora está comprometido com a saída americana do pacto.

Os bancos estrangeiros têm restrições para fazer negócios com o Irã, mesmo depois de terem sido incentivados por seus governos a facilitar o comércio e o investimento. “Fomos ao Ministério da Economia da França e eles nos deram uma lista de todos os bancos que concordariam em trabalhar com o Irã. Mas, quando ligamos para eles, todos disseram não”, disse à France Presse o empresário francês Amaury de la Serre, que tem um restaurante em Teerã.

+ Foi um 'erro grave', diz Obama sobre decisão de Trump de deixar acordo com o Irã

O Banco Mundial diz que o Irã recebeu apenas US$ 3,4 bilhões de investimento estrangeiro em 2016 – muito longe dos US $ 50 bilhões que o presidente Hassam Rohani esperava. A situação só piorou após a vitória de Trump. Analistas e autoridades estimam que cerca de US $ 30 bilhões deixaram o Irã nos últimos meses.

“O acordo nuclear foi uma decepção genuína”, disse Ardavan Amir-Aslani, advogado internacional que tem um escritório em Teerã. “O governo é capaz de vender petróleo, mas isso só paga funcionários e mantém a infraestrutura. Não serviu para atrair nem uma fração do investimento necessário”, disse.

“Vamos ver mais migrações, mais desemprego, mais falências, mais empobrecimento”, disse Amirhossein Hasani, ex-dono de uma fábrica de equipamentos de cozinha que hoje vende moedas estrangeiras. “Alguns podem pensar que isso levará a uma mudança de regime, mas os protestos serão reprimidos e nós ficaremos mais pobres.”

+ O que é o acordo nuclear com o Irã e por que ele é criticado?

Os esforços de Rohani para promover a transparência e abrir a economia do Irã não surtiram efeito. Os protestos de dezembro e janeiro revelaram a profundidade da raiva da população com os parcos progressos do país após o acordo. 

A ruína de Rohani vai fortalecer seus inimigos internos: os conservadores de linha dura, que há muito perderam o apoio popular, mas controlam as forças de segurança, o Judiciário e a TV estatal. 

“Eles usarão a oportunidade para minar Rohani e tentar tomar o poder. Eles não o perdoarão por ter confiado nos EUA e nunca mais vão negociar com os americanos”, escreveu Davoud Hermidas-Bavand, professor de relações internacionais da National Defense University. “Nos próximos meses, podemos testemunhar uma explosão cega de raiva e não é possível fazer prognóstico sobre o que pode ocorrer.” / AFP e NYT

Mais conteúdo sobre:
Irã [Ásia] armamento nuclear

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.