AFP PHOTO / EITAN ABRAMOVICH
AFP PHOTO / EITAN ABRAMOVICH

Vida de jovens nortistas termina no Atlântico

Tragédia de submarino argentino acaba com sonho de jovens que cresceram longe do mar, mas que apostavam em carreira na Marinha

Luiz Raatz, ENVIADO ESPECIAL / MAR DEL PLATA, ARGENTINA

26 Novembro 2017 | 05h00

Humberto Vilte já está sendo chamado de “Tripulante 45”. Ele escapou da morte no submarino ARA San Juan porque pediu para não embarcar para visitar sua mãe que estava doente na Província de Jujuy. Outros oito companheiros de farda que desapareceram com a embarcação, no dia 15, vinham da mesma região pobre, encastelada no norte da Argentina.

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Ao menos 15 dos 44 tripulantes do San Juan eram de províncias do norte, especialmente Salta, Jujuy e Tucumán – ao pé da Cordilheira dos Andes e distantes do mar. Vindos de umas das regiões mais pobres e afastadas da Argentina, eles viram na carreira militar na Marinha uma possibilidade de obter uma formação e uma carreira de sucesso.

Estimativas da Marinha argentina indicam que 40% dos cadetes que entram em suas escolas de formação vêm dessas províncias. Outros quatro tripulantes eram de regiões também pobres do norte argentino, como Posadas, Chaco e Misiones. Segundo oficiais que acompanham os processos de seleção, os nortistas são especialmente perseverantes nos exames técnicos e físicos da Marinha, o que faz com que eles geralmente sejam selecionados.

A distância do oceano – Jujuy fica a 2 mil quilômetros de Mar del Plata, onde o submarino ficava ancorado – serve como uma espécie de fascínio para esses oficiais. Quando começam a servir, dizem os colegas, se apaixonam pela vida no oceano. A possibilidade de um emprego estável, diante de uma economia tão suscetível a crises como a Argentina, é outro fator que leva os nortistas a optarem por uma carreira onde o risco está sempre presente.

O drama dos garotos do norte da Argentina que desapareceram como o ARA San Juan repete de maneira cruel o destino terrível dos recrutas enviados pela ditadura militar, nos anos 80, para morrer na invasão das Ilhas Malvinas. 

Grande parte dos soldados que participaram do delírio do general Leopoldo Galtieri, que ordenou a invasão do arquipélago, era de nortistas que não estavam habituados às temperaturas baixas do Atlântico Sul e terminaram em uma cova rasa e sem nome nas planícies das Malvinas.

Entre os oficiais que vieram do norte da Argentina está Eliana María Krawczyk, de 35 anos. Natural de Misiones, na Tríplice Fronteira com Paraguai e Brasil, ela é a primeira submarinista da América do Sul. Viu o mar pela primeira vez apenas aos 21 anos. 

A carreira na Marinha, porém, começaria quase dez anos depois, em 2012, depois de perder o irmão num acidente e a mãe, após um ataque do coração. A família lhe apelidou de “rainha dos mares” pelo ineditismo de sua função. No San Juan, era chefe de armas.

Gostava da vida no mar e disse em entrevista recente que nunca teve problemas por ser a única mulher da equipe. “Durmo no mesmo quarto dos meus companheiros e nunca tive problema com ninguém”, afirmou.

O capitão da embarcação, Pedro Martín Fernandez, de 45 anos, também veio do norte da Argentina. Natural de San Miguel de Tucumán, ele prometera à mãe, de 80 anos, que faria sua última viagem. Depois do acidente, amigos relataram que dona Emma Juárez está em estado de choque. A diários da região, ela disse que desde cedo o filho teve vocação para a carreira militar e sempre esperava ansiosa as férias de fim de ano quando podia desfrutar da companhia dele e dos netos. Salta e Jujuy, província com o maior número de oficiais no San Juan – seis –, são as mais pobres do país, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

O tripulante que melhor se encaixa no perfil de um nortista que apostou tudo em uma carreira na Marinha é o cabo Luis Esteban García, técnico eletricista de 31 anos. Casado e pai de uma filha, deixou a província aos 18 anos para ajudar economicamente a família, de acordo com seu irmão.

Mais velho de sete irmãos, fez as provas para entrar na Marinha na província vizinha de Salta, onde obteve notas satisfatórias. Aprovado, partiu para Bahia Blanca, na costa atlântica, com apenas uma mochila de roupas. Sua família, diz o irmão que também pretende entrar para a Marinha, sempre foi muito humilde. “Hugo tinha muita paixão pelo que fazia e me incentivava a entrar na Armada”, disse Gabriel. “Desde 2013, ele trabalhava no submarino e amava esse emprego.”

Desde que começou a ascender na carreira militar, ele se estabeleceu em Mar del Plata, como a maioria dos submarinistas do ARA San Juan. A família veio do norte da Argentina assim que soube do desaparecimento do submarino. Sua mãe, Victoria, reagiu com extrema tristeza à notícia de que o submarino tinha explodido e teve de ser amparada pela nora e os netos. “Filho, já sinto que minhas forças estão no fim”, disse. “Espero que Deus me dê forças para esperar pela sua volta.”

 

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