Juda Ngwenya/Reuters/Arquivo
Juda Ngwenya/Reuters/Arquivo

Vida e carreira se confundem com a história da África do Sul

Jovem advogado e militante do CNA optou pela luta armada após o Massacre de Sharpeville, em 1960

O Estado de S. Paulo,

06 de dezembro de 2013 | 00h20

A África do Sul moderna nasceu e cresceu com Nelson Mandela. O país deixa de ser uma colcha de retalhos em 1910, quando é celebrada a união de todos os territórios sul-africanos. As primeiras leis que restringem a propriedades de terras pelos negros são aprovadas em 1913 e, em 1917, um ano antes de Mandela nascer, Jan Smuts, que seria eleito premiê em 1919, usa pela primeira vez a palavra "apartheid".

Quando Mandela deixou sua terra natal e chegou a Johannesburgo, em 1941, a cidade fervilhava de negros que vinham de todos os cantos do país a procura de trabalho. Sem emprego e dinheiro, ele chegou a morar em um quarto alugado em Alexandra, um gueto negro miserável de Soweto, no subúrbio de Johannesburgo.

A partir dos anos 40, explodiu a tensão entre a maioria negra e o governo branco e Johannesburgo era o epicentro da batalha. O Congresso Nacional Africano (CNA), partido negro que hoje governa o país, surgiu em 1912, mas se manteve obscuro até ser tomado pelo nacionalismo africano e pelas ideais dos três amigos: Mandela, Walter Sisulu e Oliver Tambo.

Eles faziam parte da Liga Jovem, que defendia greves, boicotes e atos de desobediência civil. O grupo se fundiu com o CNA em 1949. No ano seguinte, juntos, organizaram uma gigantesca campanha de desobediência civil inspirada nos conceitos de Mahatma Gandhi e idealizada por Mandela.

"Foi nos primeiros anos de CNA que Mandela entendeu que a nação cossa era só uma parte da África do Sul e percebeu que a missão do partido era unir todos os sul-africanos e construir uma nação", escreveu o historiador Anthony Sampson, um dos biógrafos de Mandela.

A África do Sul se polarizava rapidamente e as tensões eram latentes. O Partido Nacional, exclusivamente branco, havia vencido as eleições de 1948 e Hendrik Verwoerd, ministro do governo, começou a rascunhar sua política de "desenvolvimento separado" – apartheid, em africâner. "Contra o senso comum, Tambo gostou das medidas de Verwoerd. Ele dizia que assim ficaria mais evidente a opressão e seria mais fácil mobilizar a população", lembraria Mandela, anos mais tarde.

Em 1953, ele e Tambo montaram um escritório de advocacia. Enquanto a luta se radicalizava no país, Mandela ganhava notoriedade, dentro e fora dos tribunais. "Ele era alto, forte, um lutador de boxe, com uma presença física incrível", diz Fatima Meer, ativista e mais antiga biógrafa de Mandela. "Aliado a isso, ele tinha um senso de humor irresistível, que cativava as pessoas." "A presença dele iluminava os tribunais", afirmou George Bizos, colega advogado da época, em documentário da rede BBC. "Mandela irritava juízes e advogados brancos simplesmente por se recusar a ser subserviente."

A divulgação da Carta da Liberdade, em 1955, no auge do extremismo racial, colocou Mandela de vez na mira da polícia. O documento, assinado por todos os grupos opositores do país, exigia a criação de uma África do Sul democrática e multirracial, mesmos direitos para todos os grupos étnicos, distribuição da riqueza e reforma agrária.

Os comunistas embarcaram no movimento – até hoje são aliados do CNA – e o governo branco se aproximou dos EUA. A Guerra Fria havia chegado à África do Sul e Mandela foi declarado um fora da lei, acusado de alta traição com outros 156 pessoas que criaram a Carta da Liberdade.

Após quatro anos e meio de julgamento, ele seria absolvido da acusação, mas não ficaria livre da perseguição policial. Mais cedo ou mais tarde, Mandela acertaria contas com seu destino, trocaria o pacifismo pela luta armada – após o Massacre de Sharpeville, em 1960 – e seria enclausurado em uma cela pelos próximos 27 anos.

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