EFE/GABRIEL BARRERA
EFE/GABRIEL BARRERA

Vida na Venezuela acontece em grandes filas em meio a desespero e violência

Nos últimos 12 meses, mais de 20 pessoas foram assassinadas enquanto aguardam enfileiradas para conseguir comprar alimentos básicos

O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2016 | 09h25

CARACAS - As pessoas passavam horas esperando em frente à farmácia, afetadas pelo calor e pelo cansaço, quando os homens armados chegaram. Pediram a um homem de 25 anos, de calças curtas, que entregasse seu celular. Pero Junior Pérez saiu correndo em direção à entrada da farmácia. Oito tiros foram ouvidos e ele caiu de bruços.

Indiferentes, os clientes na fila guardavam seus lugares enquanto os homens armados remexiam nos bolsos de Pérez. As pessoas contemplavam o fio de sangue que saía da cabeça do jovem e escorria pela calçada. E quando chegava a sua vez, cada um comprava dois tubos de pasta de dente que o programa de racionamento autorizava.

“Agora, a fila tem prioridade sobre tudo”, disse a farmacêutica Haidé Mendoza. “Garanta que vai conseguir o que precisa e não sinta pena por nada.” Conforme as filas ficaram maiores e mais perigosas, elas tornaram-se não só palco da vida cotidiana, mas um verdadeiro cenário de morte.

Mais de 20 pessoas foram assassinadas nas filas nos últimos 12 meses, incluindo uma criança de quatro anos que morreu em razão de um tiroteio entre gangues. Uma mulher de 80 anos morreu esmagada quando uma fila de clientes se transformou repentinamente em uma multidão de saqueadores, algo que acontece com frequência crescente em razão da escassez de diversos produtos na Venezuela.

A magnitude da crise econômica pode ser medida pelo comprimento das filas que aparecem em todos os bairos. O venezuelano que vai às compras gasta cerca de 35 horas mensais nas filas para comprar alimentos. Esse tempo é três vezes maior do que o registrado em 2014, segundo o instituto de pesquisas Datanálisis.

“A crise piorou exponencialmente. Isso se converte em grandes filas, que é a vida comum de um venezuelano que não compra produtos no mercado negro”, disse o presidente do Datanálisis, Luis Vicente León. “Esta população que está na rua é hipersensível. Pode haver conflitos. Estão competindo por um bem escasso.”

Crise. A economia do país se sustentava pela riqueza em petróleo, mas anos de má administração sob um governo que se diz socialista provocaram uma paralisia de grande parte da produção, e a Venezuela passou a depender muito das importações.

O desespero alimenta a violência. A estudante de mediciana María Sánchez parecia tímida e distraída como qualquer outra pessoa que aguardava em uma fila em Caracas para comprar farinha. Mas quando uma mulher tentou passar na frente dela e de sua mãe, María começou a dar socos e pontapés. Parou somente quando a intrusa saiu mancando.

María passou o resto do tempo esperando sua vez com os lábios apertados, enquanto sua mãe chorava. “Tem que ser esperta ou as pessoas se aproveitam”, disse. A necessidade está em todas as partes.

Às quartas-feiras, os vizinhos de um dos bairros mais ricos da capital venezuelana se enfileiram com tambores de 20 litros a espera de um caminhão que leva água potável. Os mais pobres disputam os galões.

Às sextas-feiras, as filas nos bancos ficam ainda maiores porque os caixas eletrônicos não conseguem lidar com a inflação mais alta do mundo, e as máquinas não são recarregadas aos sábados e domingos. Os venezuelanos evitam dinheiro em espécie, e até os vendedores de suco de laranja nas ruas aceitam cartão de crédito.

Todos os venezuelanos, adultos e crianças, têm dois dias por semana para fazer compras conforme o número de seu documento de identidade. Fazem filas em supermercados antes de abrirem, deixam-se levar por rumores ou por experiências boas do passado. Grávidas e idosos têm filas preferenciais e cada um pode comprar até duas unidades do que está à venda. As maiores filas são para os bens mais escassos: os alimentos.

Nove em cada dez pessoas dizem que não podem comprar alimentos suficientes, de acordo com um estudo da Universidade Simón Bolívar. Os preços estão muito altos em razão da escassez e dos revendedores do mercado negro. Os venezuelanos fazem filas para adquirir bens subsidiados, sem saber quando finalmente será sua vez.

Os supermercados e caminhões de abastecimento são vigiados por soldados armados. A Guarda Nacional já matou três pessoas e prendeu centenas no verão quando tentava controlar motins em todo o país, provocados pela escassez.

Drama diário. Para os mais velhos, o calor é insuportável. Irama Carrero havia passado horas com o olhar vazio na fila para idosos de uma tenda de alimentos em um bairro abastado de Caracas em maio. De repente, seu corpo se inclinou para trás. Como ninguém a ajudou, ela bateu com a cabeça na calçada. Quando recuperou os sentidos, começou a vomitar.

Um jovem se ofereceu para levá-la a um hospital. No caminho, Irama disse que não havia comido desde o dia anterior. “Não há aposentadoria para isso”, contou ao fechar os olhos.

As filas refletem a escassez e a pobreza. Com um salário mínimo de US$ 15 mensais e uma inflação de três dígitos, o trabalho não paga o mínimo.

Quando o corpo de Pérez chegou no necrotério, em meados de abril, havia pessoas que estavam esperando os corpos de seus parentes há dias. Quando eles chegavam, as famílias cobriam o nariz para evitar o odor forte, já que o ar-condicionado não funciona. Dali, partiam para o cemitério e esperavam pelo processo do enterro, que dura três dias. /Associated Press

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