Videla admite crimes da ditadura argentina

Ex-ditador diz que membros do regime designavam os desaparecimentos com o termo ‘disposição final’

Ariel Palacios / CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES,

13 de abril de 2012 | 21h07

BUENOS AIRES - "Disposição final" era, segundo o ex-ditador Jorge Rafael Videla, a expressão usada pelos militares para referir-se ao assassinato de presos pela ditadura argentina, entre 1976 e 1983. No livro Disposição Final - A confissão de Videla sobre os desaparecidos, do jornalista Ceferino Reato, o ex-general assumiu que o regime matou 7 mil ou 8 mil pessoas.

 

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Para Videla, esse era o preço a ser pago para que a Argentina ganhasse a guerra contra a subversão. No livro, o ex-ditador assegurou que o regime militar fez os restos mortais das vítimas desaparecerem "para não provocar protestos dentro e fora do país." "Tínhamos de fazer algo que não fosse tão evidente (os desaparecimentos) para evitar que a sociedade percebesse", afirmou.

Ele nega que os membros do regime que torturou e assassinou 30 mil civis tenham usado a expressão "solução final", tomada pelos nazistas para designar o Holocausto. Segundo Videla, "disposição final" são palavras militares que significam "retirar de serviço uma roupa que já não se usa". Na obra, o ex-ditador, que está preso há vários anos na cela número 5 da Unidade 34 do Serviço Penitenciário do quartel de Campo de Mayo por crimes contra a humanidade, disse que não se arrepende das mortes.

Videla afirma que era impossível levar milhares de pessoas à Justiça. "E tampouco podiam ser fuziladas", explicou. "Mas eram pessoas que tinham de morrer para que vencêssemos a guerra contra a subversão." O ex-general justificou as mortes: "eram pessoas irrecuperáveis".

Videla também sustenta que não existem listas com o destino final dos desaparecidos. "Poderiam existir listas parciais, mas bagunçadas." Aos 87 anos, ele admitiu que o golpe de 1976, que deu início a sete anos de ditadura, foi um "erro". Segundo ele, a tomada do poder foi "desnecessária" do ponto de vista militar. No entanto, o ex-ditador ressaltou que o objetivo era o de disciplinar uma sociedade anarquizada.

A líder da organização Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, lamentou a falta de arrependimento de Videla, que no livro diz que Deus sempre esteve do seu lado.

As confissões foram o resultado de nove entrevistas que Reato, diretor da revista Fortuna fez entre outubro de 2011 e março de 2012 com Videla na prisão. "Essas entrevistas estavam destinadas a outro livro, mas quando me dei conta do que ele tinha me dito, mudei de ideia e comuniquei a Videla que ele seria o entrevistado principal de Disposição Final", lembrou o jornalista.

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