Videla pega 50 anos por roubo de bebês

Justiça argentina responsabiliza ex-ditador por abdução e alteração de identidade de filhos de militantes de esquerda durante regime militar

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2012 | 03h02

O ex-ditador da Argentina Jorge Rafael Videla foi sentenciado ontem a 50 anos de prisão pelo roubo de 35 bebês durante o regime militar (1976-1983). O general Reinaldo Bignone, último a comandar a ditadura, foi condenado a 15 de prisão. Ambos já cumprem sentença de prisão perpétua por outros crimes.

O tribunal concluiu que o roubo de bebês era uma ação sistemática e organizada pela cúpula militar de Buenos Aires. Com isso, cai a tese de que o roubo de crianças, embora em grande escala, era feito "improvisadamente" por oficiais de baixa patente, sargentos e soldados, sem um planejamento centralizado. O roubo de bebês é considerado crime imprescritível.

Além de Videla e Bignone, também foram condenadas nove pessoas, incluindo o almirante Antonio Vañek, que recebeu 40 anos de prisão. O ex-capitão da Marinha Jorge "El Tigre" Acosta, que ganhou fama nos porões argentinos por estuprar as prisioneiras, foi sentenciado a 30 anos. Acosta - que tinha delírios místicos e dizia que falava com "o Menino Jesus" - já acumula uma pena de prisão perpétua.

Ele e Vañek operavam na Escola de Mecânica da Marinha (Esma). Um médico que trabalhava com eles, Jorge Magnacco, responsável por partos clandestinos, foi sentenciado a 15 anos.

Dos 35 bebês roubados cujos casos foram analisados pelos juízes, 26 recuperaram suas identidades nas últimas décadas. Destes, 20 prestaram depoimento no tribunal. Uma das crianças que ainda permanece desaparecida é Guido Carlotto, neto da líder das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto.

Organizações de defesa dos direitos humanos calculam que 500 bebês foram roubados pelo regime argentino. Principalmente graças ao trabalho das Avós da Praça de Maio, 105 crianças desaparecidas - atualmente adultos - foram identificadas e retomaram contato com suas famílias biológicas.

A maioria dos bebês nasceu em maternidades clandestinas dos campos de detenção e tortura. Após os partos, as mães eram fuziladas, jogadas em alto-mar ou torturadas com choques elétricos até morrer. No entanto, diversas crianças foram roubadas quando estavam com os pais. Em alguns casos, elas eram entregues a famílias que dariam - segundo os militares - uma educação "cristã" e "antimarxista".

Enquanto os pais eram assassinados, as crianças ganhavam documentos falsos e passavam a viver em famílias de militares sem filhos. Na época, o general Ramón Camps afirmava que deviam "educá-las no caminho da vida cristã e ocidental".

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