Videla usou esporte para mascarar insatisfação popular

Bignone lamentou que militares não tivessem aproveitado euforia com Copa e realizado eleições: 'Teríamos vencido'

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h04

Em 1978, a ditadura argentina estava no apogeu. A guerrilha havia sido derrotada e a ciranda financeira do ministro Alfredo Martinez de Hoz propiciava turismo em massa de argentinos no exterior, que invadiam lojas em Miami e Paris aos gritos de "dá-me dois". Naquele ano, Silvana Suárez foi coroada Miss Mundo. Além disso, o ufanismo esportivo - estimulado pelo general Jorge Rafael Videla - tomava conta do país. O tenista Guillermo Villas vencia torneios e o piloto de Fórmula 1, Carlos Reutemann, era um ídolo.

No entanto, 1978 também era o ano em que a Argentina enfrentava sua maior crise diplomática com o Brasil em razão de Itaipu, que os argentinos temiam que fosse usada para "inundar" o país. Buenos Aires também protagonizava uma corrida armamentista com o Chile pela disputa do Canal de Beagle. Os problemas, porém, eram eclipsados pelos preparativos para a Copa do Mundo.

A realização do Mundial causou manifestações na Europa, onde organizações de defesa dos direitos humanos tentaram boicotar o evento. Em maio de 1977, 3 mil pessoas marcharam em Paris, lideradas pelo filósofo Jean-Paul Sartre. Videla tentou contra-atacar com o slogan "Nós, argentinos, somos direitos e humanos".

No entanto, Videla não tinha problemas com a Fifa, que não se incomodava em realizar a Copa em uma ditadura. Dois dias após o golpe de 24 de março de 1976, uma missão da federação internacional, liderada por Hermann Neuberg, ex-integrante da SS nazista, esteve em Buenos Aires. "Somos pessoas de futebol, e não políticos", disse Neuberg.

Na cerimônia de abertura da Copa, no estádio Monumental de Núñez, Videla condecorou o presidente da Fifa, João Havelange. A dez quarteirões dali funcionava o maior centro de torturas do regime, a Escola de Mecânica da Armada (Esma). Outros 500 centros de tortura espalhavam-se pelo país.

O regime oi também respaldado pelo então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, fã do futebol, que foi a Buenos Aires para ver os jogos. No dia seguinte à final, uma multidão ovacionou Videla na Praça de Maio. Anos depois, o último ditador, Reynaldo Bignone, declarou que os militares haviam cometido um grave erro na ocasião, quando a população estava eufórica. "Se tivéssemos convocado eleições naquela hora, teríamos vencido", disse.

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