Vídeo expõe aumento do crime na Bolívia

Gravação de assassinato em Santa Cruz causa indignação e torna claro o crescimento da influência violenta dos grupos vinculados ao narcotráfico

WILLIAM NEUMAN , THE NEW YORK TIMES , SANTA CRUZ DE LA SIERRA, BOLÍVIA, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h06

O vídeo chocante, tirado de uma câmera de segurança, mostrou o assassino usando um boné de beisebol e óculos escuros perseguindo sua presa aterrorizada em plena luz do dia numa rua de Santa Cruz de la Sierra. A vítima parece suplicar por sua vida e tenta escapar até que o criminoso, agarrando a pistola com as duas mãos, atira na cabeça do indivíduo ao lado de um automóvel estacionado.

Exibido e reexibido na TV, esse vídeo intensificou a indignação pública contra a onda de assassinatos nesta cidade de 1,6 milhão de habitantes, a mais povoada da Bolívia e hoje centro de um crescente comércio de droga. Esse vídeo se tornou o exemplo extremo do aumento de crimes violentos num país que sempre foi considerado mais seguro do que muitos dos seus vizinhos.

A resposta do governo foi rápida: "Como ele assassina com tamanho sangue-frio, quero que o criminoso seja capturado imediatamente, vivo ou morto", afirmou Carlos Romero, um dos ministros de gabinete do presidente Evo Morales, dias após o crime, aumentando a percepção geral de que a vítima foi morta por um assassino de aluguel, talvez em razão de uma disputa do mundo das drogas. "Não permitiremos que assassinos de aluguel se estabeleçam na Bolívia."

Rubén Costas, governador do Departamento (Estado) de Santa Cruz, que inclui a cidade do mesmo nome, advertiu que a onda de assassinatos pode transformar o local em uma nova Ciudad Juárez, no México, conhecida pelo nível de violência associada à droga, que é dez vezes pior do que ocorre em Santa Cruz.

A Bolívia é um dos países mais pobres da América Latina, mas a taxa de homicídios é de um único dígito, próxima da registrada em países mais desenvolvidos do continente, como Chile e Argentina.

Mas o número de crimes vem aumentando. O país registrou 8,9 homicídios para cada grupo de 100 mil pessoas em 2010, um aumento em comparação com os 6,5 em 2005, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.

Mas a Bolívia é bem mais segura do que vizinhos como o Brasil, que registra 21 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes, ou a Venezuela, com 45 assassinatos, de acordo com dados das Nações Unidas.

Os bolivianos vêm lutando contra o comércio crescente da droga e o aumento no uso de entorpecentes dentro do país. A Bolívia é o terceiro produtor de coca do mundo, planta usada para a fabricação de cocaína, e tem uma fronteira muitíssimo mal controlada com o Brasil, um dos mercados de droga que mais cresce no mundo. Grandes quantidades de droga também passam pela Bolívia vindas do Peru.

E como Santa Cruz situa-se na fronteira com o Brasil ela está no centro do comércio de entorpecentes.

"Hoje o que vemos é o crime organizado, máfias, tráfico de droga, dinheiro sujo, armas. Sem dúvida o nível de criminalidade vai crescer rapidamente", disse Vladimir Pena, secretario do Interior de Santa Cruz. "Estamos registrando um aumento no número de homicídios de um lado e, em segundo lugar, o nível de crueldade tem crescido."

A onda de crimes também reforça queixas dos moradores de Santa Cruz, baluarte da oposição ao presidente Morales, de que a cidade recebe pouca atenção do governo em La Paz, que tem o controle das forças de polícia.

Os dois lados não conseguem nem mesmo concordar quanto ao número de policiais que ali operam. Vladimir Pena diz que foram designados 4.500 policiais para o Departamento de Santa Cruz, o maior do país em termos de área.

Além disso muitos realizam apenas trabalhos burocráticos, longe das ruas. Por outro lado, Carlos Romero afirma que são mais de 6 mil, e mais 340 oficiais serão designados para a região como resposta à onda de assassinatos.

Um dia depois de o assassinato ter sido gravado em vídeo, o governo criou um plano de emergência para reprimir o crime violento em Santa Cruz, ampliando as operações contra os pequenos traficantes e batidas nos bordéis para descobrir possíveis estrangeiros que estão no país ilegalmente e podem estar ligados às gangues.

Ao todo, ocorreram 16 assassinatos em Santa Cruz nos primeiros quatro meses do ano, em comparação com as 9 ocorrências no mesmo período do ano passado, de acordo com estatísticas da polícia.

Segundo o ministro Romero, pesquisas realizadas indicam que o crime é uma das principais preocupações dos bolivianos. E defendeu sua ordem para que assassinos suspeitos sejam capturados "vivos ou mortos", afirmando, porém, que os direitos legais serão respeitados.

"A mensagem foi para os criminosos de que estamos decididos a agir com total severidade", afirmou.

E foi também para a polícia, no sentido de que ele deseja uma ação rápida. Dias depois da morte de Honório Rodríguez, o homem que apareceu no vídeo sendo assassinado, a polícia prendeu um ex-detento brasileiro, corroborando a afirmação de Romero de que assassinos estrangeiros estariam por trás dos assassinatos que vêm ocorrendo. Mas o suspeito não se parecia com o assassino no vídeo e, então, ele foi liberado.

Na semana passada a polícia prendeu um indivíduo em Santa Cruz, de 29 anos, que confessor ter matado Rodríguez. Ele disse que o matou numa briga por causa de US$ 5 mil que Rodríguez lhe devia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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