Vídeo mostra rotina de mineiros presos no Chile

Imagens revelam que os 33 sobreviventes da tragédia estão mais magros, mas otimistas e organizados para suportar os 4 meses

AP, EFE e AFP, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Um vídeo gravado pelos 33 mineiros que estão presos há 22 dias sob o deserto de Copiapó, no norte do Chile, correu o mundo ontem, mostrando o drama e a esperança do grupo que luta para suportar os quatro meses de espera pelo resgate, 688 metros abaixo da superfície.

Os 45 minutos de imagens foram captados pelos próprios mineiros com uma câmera de alta definição enviada por meio de uma sonda. No vídeo, eles aparecem sujos, com barbas longas, quase completamente despidos e magros, mas eufóricos e bem humorados. Um dos operários, com um capacete vermelho, conduz a câmera, que projeta um tênue foco de luz no meio da escuridão. À medida que ele se aproxima dos demais colegas, surgem sorrisos, aplausos, acenos e curtos depoimentos.

"Aqui, temos tudo bem organizado. Por aqui temos um jogo de dominó", diz um deles, apontando para uma mesa. "Este é o lugar onde nos entretemos, fazemos reuniões todos os dias, planejamos e oramos."

Em seguida, ele mostra um recipiente com água. "Com isso, escovamos os dentes e fazemos nossa higiene básica", diz. "Há um excelente grupo de trabalho, um excelente grupo de profissionais e essa é uma das coisas que mais nos fortalecem."

Além de mensagens religiosas, saudações familiares e gritos de "viva, Chile", os mineiros encontraram forças para brincar. Um deles, ao ser focalizado pela câmera, aponta para um colega e brinca: "Esse aqui não quer ser resgatado porque vai ter de tomar banho."

O vídeo foi exibido num telão instalado do lado de fora da mina, num conjunto de barracas, máquinas pesadas e refeitórios improvisados que recebeu o nome de Acampamento Esperança. Parentes dos mineiros aplaudiram e abraçaram-se ao ver as primeiras imagens nítidas dos sobreviventes em quase um mês.

"Estamos tranquilos porque vimos que eles estão sãos, contentes, alegres", disse Carlos Yañez, que identificou seu irmão Claudio nas imagens. "Eles nos deram uma lição, têm muita força."

Depois de ver o vídeo gravado pelos sobreviventes, será a vez dos parentes dos mineiros gravarem mensagens de apoio. Ontem, uma equipe começou a colher os primeiros depoimentos, que devem conter apenas mensagens positivas. Embora alguns mineiros tenham feito comentários sobre contas a pagar e salários a receber, o governo pediu que as famílias não falem de problemas.

Enquanto isso, técnicos concluíram ontem a construção da plataforma sobre a qual será montada a máquina perfuradora de 30 toneladas que alcançará o grupo até o Natal. As perfurações do buraco, de 66 centímetros de diâmetro, devem ter início amanhã ou na segunda-feira.

Medo e angústia. Mas a euforia com o novo sinal de vida enviado pelo grupo contrasta com as dúvidas manifestadas em algumas cartas manuscritas que chegaram à superfície ontem. Numa delas, o mineiro Edison Peña escreveu a sua mulher: "Angélica, eu preciso, se for possível, que você responda todas essas perguntas, por favor: O que disseram sobre nós para você? Existe alguma máquina que esteja sendo instalada para nosso resgate? Qual é o prazo que deram para você como data possível para nossa saída? Parece que serão dois meses aqui dentro, ou não? Averigue, por favor."

O texto revela uma tentativa de confirmar se as informações passadas ao grupo pelo governo e pelas equipes de resgate são verdadeiras. Inicialmente, o presidente chileno, Sebastián Piñera - primeiro a conversar com os mineiros, por meio de um interfone, no início da semana -, relutou em dizer com clareza quanto tempo o resgate poderia durar.

Ontem, o governo reconheceu que não sabe quanto custará a operação de resgate. "É uma operação que ainda está em marcha, não temos um cálculo", disse o ministro da Fazenda Felipe Larraín. A imprensa local publicou várias reportagens na quinta-feira estimando os custos da operação em US$ 10 milhões - metade da cifra corresponderia ao aluguel da máquina que fará a perfuração final. A Justiça congelou bens dos proprietários da Mina San José, onde ocorreu o acidente, avaliados em US$ 900 milhões.

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