Vieira de Mello era cotado para secretário-geral da ONU

Diplomata habilidoso, poliglota e negociador nato. Esses eram algumas das palavras mais repetidas por políticos de todo o mundo sobre Sérgio Vieira de Mello, morto nesta terça-feira em Bagdá e que, até agora, foi o brasileiro que ocupou o cargo mais alto já atingido por um cidadão do País na ONU. Com 55 anos e desde 1969 nas Nações Unidas, o brasileiro percorreu praticamente todos os corredores da instituição e, para muitos, estava a caminho de se tornar o próximo secretário-geral. "Todas as vezes que o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, precisava apagar algum incêndio em algum lugar do mundo, chamava Vieira de Mello para acudir", afirma uma funcionária que, por muitos anos, trabalhou ao lado do brasileiro.O brasileiro, que estudou no Rio de Janeiro e era doutor em Filosofia e Ciências Sociais pela Sorbonne, começou seus serviços pela ONU no setor de refugiados. Trabalhou em Bangladesh, Peru, Chipre, Moçambique e Sudão. Entre 1981 e 1983 foi para o Líbano tentar estabelecer paz durante a guerra civil e, dez anos mais tarde, dirigiu os esforços da ONU na Bósnia. Em 1996, foi enviado para Ruanda, que acabava de viver um genocídio, e se tornou o coordenador de ações humanitárias da ONU para a região dos Grandes Lagos. Pouco tempo depois era hora de voltar aos Bálcãs para ser representante da ONU no Kosovo.Vieira de Mello já poderia ter se tornado uma das figuras mais relevantes da ONU em meados dos anos 90, quando foi indicado para ocupar o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados. Mas pelo fato de o Brasil não pagar suas contribuições anuais à entidade, o diplomata acabou não sendo escolhido.Missão no TimorMas Vieira de Mello acabou tendo outra honra. Foi o único brasileiro que ocupou a presidência de fato de um país estrangeiro. Em 1999, foi novamente chamado para "apagar o fogo" e enviado ao Timor Leste para governar o país após a independência em relação à Indonésia, até que a população local conseguisse estabelecer seu próprio governo.Na época, o diplomata brasileiro Flávio Damico passou sete meses com Vieira de Mello na capital Dili e não esconde a admiração que teve por seu trabalho. "O compromisso de Vieira de Mello era com a vida humana", afirmou.Ao deixar o Timor, Vieira de Mello foi considerado como o responsável pela missão de maior sucesso da ONU nos últimos anos e elevado ao posto de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, trabalhando em Genebra para garantir o respeito à vida nos locais mais críticos do planeta.Missão no IraqueMas sua permanência na Suíça não durou sequer um ano. Vieira de Mello foi mais uma vez convocado para resolver uma crise: a do Iraque. Desta vez, porém, nem todos na ONU elogiaram sua decisão. Embaixadores de vários países o acusaram de estar deixando os direitos humanos de lado para tentar dar mais um salto em sua carreira.De fato, Vieira de Mello havia caído nas graças do presidente George W. Bush. Em abril deste ano, esteve na Casa Branca e conversou por horas com o presidente americano, que não poupou elogios ao brasileiro. Para muitos em Genebra, Vieira de Mello estaria legitimando a ocupação do Iraque ao aceitar o posto e sendo cúmplice da guerra.Mas ele tinha outra avaliação: o povo iraquiano estava sofrendo graves violações aos direitos humanos e seu trabalho poderia contribuir para solucionar a crise. "Não esperem que eu fique tratando de direitos humanos apenas de uma sala confortável. Não é em Genebra que as violações ocorrem. Gosto de sujar as botas de lama de tempos em tempo", afirmou o brasileiro em seu último dia na sede da ONU.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.