Viena, a cidade que não para de reclamar

Enquanto Europa vive recessão, cidade reduz preço do transporte público. Mas vienenses nunca estão satisfeitos.

Bethany Bell, BBC

24 Maio 2012 | 15h24

Por um bom número de anos, Viena vem recebendo nota dez em pesquisas internacionais nas áreas de segurança, limpeza e serviços públicos. Mas enquanto muitos vienenses são ferozmente orgulhosos de sua cidade, há também uma tradição de descontentamento e reclamação.

O Volksgarten, ou Jardim do Povo, no centro de Viena, é um local particularmente bonito.

O jardim público, com suas fontes e castanheiras, está rodeado por alguns dos mais magníficos edifícios de Viena: a prefeitura neo-gótica, o Parlamento com suas colunas clássicas, e os esplendores barrocos do Palácio de Hofburg, que já abrigou os imperadores Habsburgo.

E em maio e junho, os seus canteiros explodem em flores, com uma variedade de multi-coloridas rosas.

Uma vez, eu vagava pelo jardim e me vi a um passo de duas senhoras vienenses, que levavam seus dois cães pequenos para um passeio.

Houvera uma tempestade na noite anterior e pétalas de rosas se espalharam pela grama, embora a maioria das flores tenha sobrevivido bem.

Mas uma das senhoras balançou a cabeça tristemente.

"Olhe", disse ela, em dialeto vienense forte, "Alles schon vorbei." "Está tudo acabado agora."

Sua companheira suspirou. "Ja, ja, leider." - "Infelizmente".

A tendência de Viena de não olhar para o lado brilhante da vida ainda me pega de surpresa.

Talvez seja um sinal de que ainda sou uma estrangeira - mesmo vivendo aqui há mais de 10 anos.

Ser descontente é, claro, humano - o motor do progresso, alguns diriam.

Mas, em Viena, muitas pessoas parecem cultivar e até mesmo afundar em sua insatisfação.

Um euro a menos por dia

Eles têm uma palavra especial para isso, "raunzen" - algo como resmungar, lamentar ou se queixar.

A situação é ainda mais impressionante para um estrangeiro, considerando-se como a vida é boa para a maioria das pessoas aqui - não só para ricos da cidade e da classe média, mas para os seus cidadãos mais pobres também.

Viena é uma das cidades mais bem administradas que conheço.

É, em comparação a muitas outras capitais europeias, um lugar seguro. A maioria das minhas amigas não vê problemas em andar sozinha para casa tarde da noite.

Décadas de governos liderados por socialistas trouxeram habitação generosa e acessível, além de outros serviços públicos de qualidade.

Abra a torneira, e você terá água fresca canalizada a partir dos Alpes.

Mas, ao ouvir alguns vienenses, é fácil se ter a impressão de que o lugar está indo ladeira abaixo de forma constante. "Nix wie ist frueher", "Nada é do jeito que costumava ser", é um refrão constante nos estandes de salsicha e bares.

Este mês, enquanto grande parte da Europa se debate nas garras das medidas de austeridade, Viena baixou novamente o preço do bilhete anual de seu transporte público limpo e eficiente. O preço caiu de 449 euros para 365 euros - basicamente um euro a menos por dia. Milhares de passes anuais extras já foram vendidos.

'Não leve a sério'

No entanto, sendo em Viena, não demorou muito para as queixas começarem.

Alguns estão preocupados porque o preço das viagens individuais agora subiu. E ao longo das últimas semanas, tenho ouvido repetidas vezes que o metrô vai ficar insuportavelmente cheio - e ninguém vai conseguir um assento novamente.

"Você não deve levar a sério todas as reclamações", um amigo me disse quando estávamos sentados em um bonde na Avenida Circular. "É apenas uma maneira de desabafar."

Mas um outro vienense não tinha tanta certeza. "No fundo, alguns deles querem dizer isso mesmo", ele disse. "Se você vive aqui o tempo todo, não tem nada para comparar e perde a noção do quanto tudo é bom."

Este é até um problema para os social-democratas, ele me disse. Eles têm perdido terreno para a extrema direita nos últimos anos.

Ele olhou por cima de seu copo de café, sorrindo ironicamente. "É difícil para eles, porque a única coisa que você nunca deve fazer quando alguém está resmungando é dizer-lhe quão bem tudo realmente está."

Alguns anos atrás, cheguei de volta a Viena depois de passar um par de meses em uma zona de conflito no Oriente Médio. No aeroporto, peguei um táxi para casa. Durante 30 minutos, o motorista contou-me em detalhes como a vida é terrível em Viena, como a cidade se tornou suja, cheia, cara e rude.

Talvez fosse porque eu estava cansada, mas o questionei.

"Você não tem idéia de como você é sortudo de viver neste lugar", eu disse ferozmente. "É lindo, as coisas funcionam aqui, você tem grandes hospitais, tudo é limpo e seguro!"

O motorista não se preocupou em responder. Ele apenas bufou.

E eu sabia exatamente o que isso significava: "Estrangeiro desgraçado!" BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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