Nhac Nguyen / AFP
Nhac Nguyen / AFP

Vietnã retira 'Abominável' dos cinemas por disputa territorial com China

Animação mostra a 'linha de nove raias' da China, território reivindicado pelo Vietnã e outros países

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 08h00

O Vietnã retirou a animação Abominável de seus cinemas por causa de uma cena na qual um mapa mostra a “linha de nove raias” declarada unilateralmente pela China no Mar do Sul da China, noticiou a mídia estatal na última segunda-feira, 14.

A linha em forma de U consta de mapas chineses para ilustrar suas reivindicações sobre vastos trechos do Mar do Sul da China, entre eles porções amplas que o Vietnã considera como sua plataforma continental, onde concedeu permissões para prospecção de petróleo.

A cena  foi suficiente para fazer com que a maior rede de teatro do Vietnã se desculpasse pela exibição e que funcionários do governo dissessem que estavam revendo o filme.

“No momento, estamos repensando o filme”, ​​disse Tran Thanh Hiep, presidente do conselho nacional de avaliação de filmes do Vietnã, de acordo com o jornal estatal Tuoi Tre. “Se houver algum erro, estou pronto para aceitar a responsabilidade.”

Abominável, que conta a história de uma menina chinesa que descobre um ieti morando em seu telhado, foi coproduzido pelo Pearl Studio de Xangai e pela DreamWorks Animation, e estreou nos cinemas vietnamitas em 4 de outubro.

Foi elogiado por ser um dos poucos filmes de grandes estúdios a focar em uma família chinesa, dublada principalmente por atores asiáticos-americanos. Ele liderou as bilheterias nos Estados Unidos em seu primeiro final de semana, faturando US$ 20,9 milhões, e recebeu críticas bastante positivas.

A linha de nove raias e a disputa territorial

Embora o enredo da animação tenha pouco a ver com as relações internacionais chinesas, o surgimento da “linha de nove raias” representou uma declaração política.

Os governos do Vietnã, Filipinas, Taiwan, Malásia e Brunei reivindicam território dentro da linha, mas a China defende agressivamente o que considera seu território.

A China, que fez a reivindicação desde a década de 1940, construiu ilhas nos últimos anos, instalando pistas e outras infraestruturas em algumas delas, e usou suas forças armadas para patrulhar as águas.

Críticas e censuras envolve filmes e esportes na China

O episódio ocorre em meio a uma discussão mais ampla do impacto da China nas indústrias de entretenimento e esportes, já que as empresas internacionais garantem que não ofendem os sentimentos do governo chinês.

Os estúdios de Hollywood garantiram preventivamente que seus roteiros não passassem pelos censores da China, para que não perdessem o acesso a um país onde os espectadores gastaram cerca de US$ 8,87 bilhões em ingressos de cinema no ano passado, segundo analistas de bilheteria.

Os custos de atravessar a China são claros. A série animada South Park foi apagada da internet da China na semana passada depois de zombar dos censores chineses e da passividade de empresas americanas em relação às proibições. No episódio, uma das personagens de South Park comentou que “vivemos em uma época em que os únicos filmes que nós, crianças americanas, vimos, são os únicos aprovados pela China”. 

A NBA se esforçou para controlar os danos na semana passada, depois que Daryl Morey, executivo do Houston Rockets, postou no Twitter um apoio aos manifestantes em Hong Kong. A liga foi forçada a equilibrar sua crença na liberdade de expressão com uma base de fãs chineses furiosos; as consequências continuaram nesta segunda-feira, quando LeBron James, sua principal estrela, chamou Morey de “desinformado” sobre o assunto.

Enquanto cobre a NBA da China, a ESPN foi criticada na semana passada depois de incluir a "linha de nove raias"em um gráfico na tela. / THE NEW YORK TIMES e REUTERS

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