Tamas Kovacs/AP
Tamas Kovacs/AP

Viktor Orban, a verdadeira ameaça para o Ocidente, vai às urnas

Premiê da Hungria deve conquistar hoje terceiro mandato seguido, em um regime autoritáriofinanciado pela Europa

Ishaan Tharoor, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2018 | 05h00

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, deve se reeleger hoje, alcançando um terceiro mandato consecutivo. Há expectativa de que seu partido, o Fidesz, garanta parlamentares suficientes para dar a Orban um novo mandato, embora uma votação fragmentada possa privá-lo de uma maioria absoluta.No poder desde 2010, Orban é o segundo líder há mais tempo no poder na Europa, depois da alemã Angela Merkel. E se tornou tão influente como ela.

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Liberal que trafegou pela direita nas décadas seguintes à queda da União Soviética, Orban, de 54 anos, agora define a si mesmo como um “democrata não liberal”, defensor de interesses, tradições e cultura de sua nação. Desde 2015, nenhum líder europeu foi mais veemente na oposição a imigrantes e refugiados do que Orban, cujo alarmismo quanto ao Islã e as ameaças à identidade cristã da Europa encontrou forte eco na extrema direita do continente e precedeu a chegada de um demagogo divisionista na Casa Branca.

O novo primeiro-ministro da Áustria, Sebastian Kurz, que chegou ao poder pela aliança com a extrema direita, elogiou a rígida postura de Orban em relação à imigração. Em uma viagem à Europa neste ano, Stephen Bannon, ideólogo de extrema direita e ex-assessor de Trump, elogiou Orban como um “herói real” e o “cara mais importante no cenário europeu”.

“A provocação de Orban traz à União Europeia uma ameaça bem diferente da enfrentada em 2016, quando a Grã-Bretanha votou pela saída e as especulações sobre quem poderia ir em seguida causaram agitação”, escreveram os meus colegas Griff Witte e Michael Birnbaum. “Pode ser mais grave do que isso – um desafio que põe em perigo o caráter da união”.

Os críticos de Orban o veem como um autocrata brando. A Hungria, sob o seu domínio, está longe de ser uma ditadura militar, mas a sua democracia diverge acentuadamente da de muitos dos seus parceiros na União Europeia. Os opositores apontam para uma nova classe de capitalistas de compadrio, estabelecendo feudos com as bênçãos do primeiro-ministro. O governo de Orban exerce um sutil, mas dominador controle, sobre o Judiciário e a mídia. Ele remodelou o sistema eleitoral do país em seu benefício, em parte através do favorecimento ao partido político e da concessão de cidadania para pessoas de etnia húngara no exterior, a grande maioria dos quais optou pelo Fidesz. 

Mas pelo menos por enquanto, essa parece ser uma estratégia vencedora. Orban segue o ritmo de um populista de extrema direita, embora tenha assento à mesa em Bruxelas e poderosos aliados em toda a Europa. Ele quer tornar sua nação grande novamente, depois de séculos de humilhação nas mãos dos otomanos, dos vencedores da 1.ª Guerra, da União Soviética e agora dos ameaçadores ocidentais, favoráveis à globalização.

“Enviamos para casa o sultão com seu Exército, o imperador de Habsburgo com seus invasores e os soviéticos com seus camaradas”, disse Orban em um comício para mais de 100 mil pessoas no centro de Budapeste no mês passado. “Agora vamos mandar o tio George para casa”. Foi uma referência ao financista judeu americano George Soros, que Orban define como o principal vilão da política do país. 

É particularmente irritante para alguns observadores em Bruxelas que Orban possa conduzir uma campanha dessas enquanto bebe profusamente do poço econômico da União Europeia. A UE, generosa em ajuda e subsídios – em 2016, a Hungria recebeu US$ 5,5 bilhões em fundos da UE, apesar de contribuir com cerca de US$ 1,2 bilhão – fundos que ajudaram o líder a financiar programas gigantescos de obras públicas e reduzir o desemprego.

“Orban está travando sua luta pela liberdade contra a UE com enormes quantidades de dinheiro europeu”, disse Peter Kreko, diretor executivo da firma de pesquisa política Political Capital, com sede em Budapeste. “Lenin disse: ‘Os capitalistas nos venderão a corda com a qual nós os enforcaremos’. Bem, a UE não a está vendendo. Está dando de graça a Orban.”

Enquanto isso, o lugar do Fidesz dentro do Partido Popular Europeu, uma poderosa aliança de centro-direita no Parlamento Europeu, dá a ele um grau de cobertura política. Orban pode contar com o apoio de proeminentes políticos da Europa Ocidental, incluindo importantes figuras do partido irmão de Merkel, da Baviera, que compartilha da antipatia de Orban por migrantes. Este apoio institucional, dizem os críticos, impediu a União Europeia de adotar uma linha mais dura com a Hungria.

Jan-Werner Muller, cientista político de Princeton, em um artigo escrito para o The New York Times, disse temer que a votação de hoje marque um momento de avaliação para a Europa. “Esta eleição provavelmente é a última antes que a Hungria mude do que já é uma democracia profundamente danificada para o que os cientistas políticos chamariam de uma autocracia eleitoral plena”, escreveu ele. “As eleições ainda seriam realizadas no futuro, mas um real revezamento de poder seria impossível. Assim, o escrutínio também é um teste para saber se pode haver uma autocracia dentro da União Europeia, um autodeclarado clube de democracias. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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