AFP PHOTO / JOSE JORDAN
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Vilarejo se descobre ninho de terroristas

Entre os 9 mil habitantes de Alcanar, grupo de jihadistas foi confundido com traficantes

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 05h00

GENEBRA - Há pouco mais de dois meses, a chegada de um grupo de muçulmanos chamou a atenção da comunidade magrebina que há mais de dez anos passou a viver e trabalhar nas pequenas propriedades e casas de veraneio de Alcanar, a 170 quilômetros de Barcelona. Os antigos moradores tentaram dar as boas vindas ao novo grupo de moradores. Receberam uma resposta fria, diferente da tradição muçulmana, em especial quando se trata de imigrantes fora de suas terras.

A pacata cidade no sul da Catalunha com apenas 9 mil habitantes sabe hoje que o comportamento daqueles novos moradores tinha um motivo. Os investigadores garantem que ali, de uma casa longe da atenção da polícia, começou a ser preparado o atentado em Barcelona.

Alcanar não tem grande número turistas estrangeiros. Vive da pesca e de laranjas, faz festas em agosto com touros e banda de música na areia da praia para uma classe média e de trabalhadores fiéis ao local. Todos se conhecem e o centro da cidade é ponto de encontro a cada fim de tarde. Os moradores não costumam suspeitar de sua comunidade de muçulmanos, que trabalham na colheita, nos pequenos restaurantes, como caseiros ou nos armazéns de pesca. Muitos começaram a estudar catalão.

O cenário mudou quando, na quarta-feira, a casa usada como base em Alcanar explodiu, depois de um acidente com gás. Moradores do local contaram ao Estado que “o bairro inteiro acordou”. Na casa, foram encontrados dois mortos e o acidente ainda deixou seis feridos, incluindo moradores de casas vizinhas que foram jogados ao chão. O local desmoronou e a primeira suspeita era de que se tratava de uma explosão por conta de uma fuga de gás, mas os serviços de fornecimento negaram qualquer problema. Naquele momento, a polícia não suspeitava de qualquer relação terrorista e o trabalho passou a se concentrar no possível uso da casa como laboratório de drogas.

A investigação mudou de rumo quando foram encontrados na van usada pelos terroristas em Barcelona documentos que traziam o nome de uma das pessoas feridas na explosão em Alcanar. A polícia passou a tratar a casa como a base do grupo e afirma que a descoberta de dezenas de botijões de gás aponta para um plano de um atentado de “grandes proporções”.

Os agentes ainda descobriram resquícios do explosivo TATP, identificado em diversos atentados cometidos pelo Estado Islâmico. O produto, entre os jihadistas, é conhecido como “mãe de Satã”. Também se suspeita que um dos dois mortos na explosão da casa seja Abdelbaki es Satty, um imã radical da cidade de Ripoll, também na Catalunha.

A existência de uma célula terrorista em um dos locais mais calmos do país chamou a atenção da pequena prefeitura local. Segundo fontes da administração, em reuniões com as forças de ordem se discutiu que a preparação do atentado planejado a partir de Alcanar pode ser uma tendência. Pequenos povoados europeus, distantes das grandes capitais e dos olhos dos serviços de inteligência, podem ganhar a preferência de grupos terroristas.

Segundo um dos moradores de Alcanar, que trabalha numa chácara, o grupo que estava na casa parecia “muito ativo”. “Víamos que havia uma grande movimentação na casa. Sempre chegavam para descarregar coisas”, disse. Outro marroquino, que trabalha no supermercado local, conta que alguns muçulmanos do vilarejo tentaram uma aproximação, pensando que fossem novos imigrantes, mas os rapazes que estavam na casa foram pouco receptivos. “Isso chamou a atenção de muitos”, admitiu. Como a polícia, os moradores pensaram que essa distância tinha relação com suposto tráfico de drogas.

Nos últimos anos, os serviços de inteligência e polícia tem concentrado seus trabalhos nas periferias das grandes cidades e em guetos. Em Alcanar, a polícia local não enviou para a Guarda Civil qualquer alerta sobre uma possível relação entre a explosão da casa e grupos radicais.

Entre os magrebinos de Alcanar, há dúvidas sobre como serão tratados. “Trabalhamos aqui há mais de dez anos. Não sabemos como será a partir de agora”, disse um deles. Suas filhas e sua mulher, que usam invariavelmente o véu islâmico, também estão preocupadas. Principalmente com o retorno à escola pública a partir de setembro. “Já nos olham de forma diferente”, lamentou o marroquino.

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