Villepin renova convite ao diálogo mas mantém o CPE

O primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, voltou a dizer hoje que está de "mão estendida" aos sindicatos para retomar o diálogo sobre o Contrato de Primeiro Emprego (CPE), mas continua defendendo a reforma trabalhista, rejeitada pela maioria da população.Em um discurso à Assembléia Nacional (Câmara dos Deputados), Villepin acusou os sindicatos de rejeitar o convite, enviado por escrito na segunda-feira. A idéia era promover uma reunião em Matignon (sede do Governo), na quarta-feira, um dia após a quarta mobilização geral contra o CPE em dois meses.Sob constantes vaias da oposição, Villepin detalhou que a sua proposta de diálogo se limita a dois pontos: reduzir a duração do período de experiência, que no projeto original é de dois anos, e introduzir uma entrevista entre o jovem e o empregador no caso de demissão. Estes são os pontos mais polêmicos. Pelo texto atual, o empregador pode despedir o jovem trabalhador sem justificativa escrita durante um período de testes de dois anos. "Somente em ação poderemos convencer os franceses de que o amanhã será melhor do que o hoje", afirmou o ministro.Villepin argumenta que a flexibilização das leis trabalhistas irá encorajar as companhias a contratarem mais jovens. Hoje, 22% dos jovens franceses estão desempregados, a maior taxa na Europa Ocidental.Numa reunião pela manhã com a União por um Movimento Popular (UMP), grupo parlamentar conservador que apóia o Governo, Villepin já tinha rejeitado a retirada do CPE. Porém, estava "aberto" a introduzir modificações na reforma, desde que "não sejam de ordem legislativa", conforme disseram vários participantes do encontro.O ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, também participou da reunião e propôs "uma suspensão na aplicação" do CPE durante as negociações. O objetivo seria buscar "um compromisso" que permita sair da crise, segundo o líder da UMP na Assembléia Nacional, Bernard Accoyer.Accoyer acrescentou que os deputados da UMP deram o seu apoio "comum e unânime" a conversas entre o Governo e os agentes sociais. Eles sugeriram uma negociação no período "entre a decisão do Conselho Constitucional" sobre o recurso contra o CPE apresentado pelos socialistas, que deverá ser anunciada na quinta-feira, e "a promulgação da lei".Seria um intervalo de 15 dias, prazo máximo para o presidente Jacques Chirac promulgar a lei depois da sua aprovação pelo Conselho.Segundo Accoyer, Villepin não comentou a proposta porque já tinha deixado a reunião, para almoçar com os Reis da Espanha.ProtestosEnquanto Villepin falava na Assembléia Nacional, dezenas de milhares de pessoas se manifestavam contra o CPE em Paris. A manifestação foi a maior das 135 convocadas nesta terça-feira em toda a França.Os organizadores estimam que três milhões de pessoas participaram das marchas, 700 mil apenas em Paris. Para a polícia, no entanto, a participação foi bem menor.A distribuição de cerca de 4 mil guardas e o aumento das patrulhas em estações de trem e metrô, preveniram o ressurgimento da intensa violência vista nas manifestações das últimas semanas. Ainda assim, arruaceiros se misturaram aos manifestantes, tentaram invadir uma loja de lingeries, atiraram pedras, cones de trânsito e outros projeteis contra a polícia, que realizou várias prisões.A marcha de ParisAlguns grevistas argumentam que protestam pelos seus filhos: "Estamos preocupados com eles caso uma lei desse tipo seja aprovada", diz Philippe Decrulle, um comissário de bordo da Air France. "Meu filho tem 23 anos, e não possui emprego. Isso é o normal aqui na França."A marcha dos descontentes arrebata grupos das mais diferentes idades. Desde estudantes sem os rostos pintados, até partidários de sindicatos. O protesto de Paris correu sob uma chuva fina e atmosfera festiva, com bandeiras sindicais vermelhas e bexigas. Ainda assim, ocorreram alguns conflitos entre a polícia e manifestantes no final da passeata. A policia tinha ordens de prender todos os baderneiros possíveis. Ao final do protesto, 105 foram levados sob custódia.GreveA greve atingiu todo o transporte público do país, deixando uma pequena fração do sistema em funcionamento. Foi a primeira vez na história da França que os sindicatos se mobilizaram para ajudar os protestos estudantis contra contratos empregatícios. Algumas escolas e faculdades foram fechadas enquanto professores desistiam de ir trabalhar. Estudantes que protestavam também fecharam uma parte das 84 universidades públicas francesas.O presidente Jacques Chirac cancelou uma viagem que estava planejada para esta terça-feira à cidade portuária de Le Havre.

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