Vínculo com Forças Armadas é desafio para herdeiro chavista

Análise: Simon Romero / NYT

O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h05

As multidões de camisas vermelhas, os punhos cerrados projetando-se no ar - uma imagem dominante do movimento político que o presidente Hugo Chávez deixou para trás - transmitem a ideia de seguidores unidos e leais ao pai de sua revolução e do seu herdeiro designado, Nicolás Maduro. Mas, embaixo da superfície, a variedade de facções que Maduro terá de enfrentar é aparentemente desencorajadora, desde as células armadas radicais nas favelas de Caracas aos burocratas privilegiados com fortes vínculos com Cuba, o maior aliado da Venezuela, e ao grupo pró-Chávez certamente mais poderoso: os militares de alta patente, cuja influência em todo o país foi fortalecida significativamente pelo líder morto.

Dos 20 Estados da Venezuela controlados por governadores do Partido Socialista Unido, que Chávez criou para consolidar o seu movimento, 11 são liderados por ex-oficiais militares. Cerca de 25% dos ministros do gabinete de Maduro, herdado de Chávez, saíram das fileiras das Forças Armadas. Poderosas figuras militares permanecem à frente de companhias estatais como a Venezuelan Guayana Corporation, um conglomerado envolvido na mineração de ouro e na produção de alumínio.

A influência da Forças Armadas, até mesmo de uma milícia que se acredita tenha 120 mil efetivos, reflete os esforços de Chávez, um ex-soldado que liderou uma tentativa fracassada de golpe em 1992, de imbuir a sociedade de ideais militares. Ao mesmo tempo, ele tolerava esquemas de enriquecimento ilícito nas Forças Armadas, mesmo se irritando com as críticas internacionais a poderosos generais acusados de envolvimento no tráfico de drogas, que nomeava para cargos importantes.

"Nem mesmo Chávez poderia governar sem controlar constantemente o panorama militar a fim de detectar sinais de resistência, punindo periodicamente e expurgando alguns membros dos escalões superiores e, ao mesmo tempo, premiando outros", disse Rocio San Miguel, chefe de uma organização que monitora questões de segurança da Venezuela.

Ao contrário do seu predecessor, Maduro, atual presidente interino e candidato nas eleições presidenciais antecipadas marcadas para o próximo mês, nunca serviu no Exército. Antes de ocupar o cargo de chanceler de Chávez durante anos, ele foi sindicalista e parlamentar. (Seu adversário é Capriles Radonski, governador e ex-candidato presidencial.) Analistas da área de segurança não preveem um clássico desafio a Maduro por parte das Forças Armadas nas figuras de oficiais que não reconhecem publicamente sua autoridade, ou conspiram para tirá-lo do cargo.

Na realidade, numa tentativa que provocou críticas de líderes da oposição, segundo os quais a Constituição proíbe as Forças Armadas de tomar partido nas campanhas políticas, o ministro da Defesa Diego Molero já apoiou Maduro, pedindo aos eleitores que deem "uma boa sova em todos aqueles fascistas" da oposição.

Mas são numerosas as armadilhas nas quais Maduro poderá esbarrar em suas relações com um establishment militar manchado por escândalos e críticas de outras facções favoráveis a Chávez. Há também uma tensão prestes a explodir entre as lideranças militares e os grupos pró-Chávez para os quais alguns membros das Forças Armadas estão exorbitando de sua autoridade, acumulando fortunas de maneira ilícita ou simplesmente como gestores incompetentes. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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