VINGANÇA DO RÉU NA MARCHA DE JUÍZES

Uruguaio protesta contra protesto de magistrados

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 02h03

Hector Daniel de Amilia, de 46 anos, era um dos poucos uruguaios que sabiam da inédita marcha dos magistrados do país por um reajuste de 26% na manhã de ontem em Montevidéu. Cerca de 100 dos 500 juízes do país ficaram 15 minutos em silêncio diante da sede da presidência, na Praça Independência. Em seguida, houve aplausos e os ternos bem cortados e as bolsas de marca sumiram da praça.

O juízes se dispersaram sem notar Hector. Ele é réu num processo em que é acusado de "acossar psicologicamente" uma companheira. Inconformado com a decisão que o obriga a manter-se afastado dela, levou um cartaz com os artigos da Constituição que alegava terem sido violados pelo Judiciário e pedia imparcialidade. "Eles não aceitaram minhas testemunhas. Por isso, vim fazer o meu protesto. É uma democracia, todos podem protestar".

Hector só não chamou mais atenção da imprensa local porque um grupo de aposentados que chegara antes dos juízes causou alvoroço ao tentar entrar no prédio. Com um microfone, o líder da Coordenadoria de Aposentados e Pensionistas, Hector Morales, chamou o governo de José Mujica de covarde. "É um governo de m... Só sairemos daqui depois que nos receberem. E eles serão os responsáveis pelo que acontecer a esse punhado de velhinhos", gritou, despertando o aplauso dos 22 aposentados que levaram 15 cartazes e cadeiras de madeira dobráveis para protestar sentados.

José Pedro Sainz, de 76 anos, era um deles. Ele recebe 10 mil pesos (R$ 1.060) de pensão. "Alguns ganham metade disso. Queremos também a volta do Aguinaldo (13.º retirado durante a ditadura, entre 1973 e 1985)", disse o homem, dono de um tradicional bigode ao estilo Mujica.

Segundo o analista político Antonio Cardarello, do Istituto de Ciências Políticas da Universidade da República, o uso da semana que antecede a eleição para manifestações é incomum no país. "A Constituição proíbe reajustes em ano eleitoral justamente por isso. É estranho que até os juízes tenham ameaçado fazer greve desta vez", disse.

Uma interpretação para a onda de protestos é a tendência clara de que o sucessor de Mujica seja o médico Tabaré Vázquez, ex-presidente, do mesmo partido, a Frente Ampla. Ele tem 11 pontos de vantagem sobre Luis Alberto Lacalle Pou, do Partido Nacional. Um indício dessa cobrança ao partido era a exigência que fazia o líder dos aposentados antes de ser finalmente recebido por um representante da presidência. "Tabaré vai ter de atender nossas reivindicações", dizia, já cobrando aquele que, segundo ele, será o presidente a partir de março. / R.C.

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