Esteban Collazo/Argentinian Presidency/AFP
Esteban Collazo/Argentinian Presidency/AFP

Violação de quarentena afeta imagem de Fernández e ameaça peronismo em eleição legislativa

Presidente atraiu uma enxurrada de críticas de opositores e membros de seu próprio partido, no momento em que o país caminha para a votação crucial para os últimos dois anos do mandato

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 19h54

BUENOS AIRES -  O episódio em que o presidente Alberto Fernández foi fotografado em um jantar com várias pessoas durante o confinamento estrito na Argentina em 2020, pelo qual ele foi indiciado na quinta-feira, está afetando a imagem do líder em meio à campanha pelas eleições legislativas. O presidente atraiu uma enxurrada de críticas de opositores e membros de seu próprio partido, no momento em que o país caminha para a votação crucial para os últimos dois anos do mandato e às chances de reeleição do peronista.

Segundo pesquisas no país, o escândalo da celebração do aniversário da primeira-dama, Fabiola Yañez, com outras 10 pessoas na residência de Olivos teve um impacto na imagem do presidente e deve influenciar o eleitor. Segundo Jorge Daniel Giacobbe, diretor da consultoria Giacobbe & Asociados, Fernández perdeu 10 pontos em sua de imagem positiva na Província de Buenos Aires e 5 na capital após a divulgação da foto do jantar, há duas semanas.

A divulgação da foto marcou o início da campanha eleitoral para as primárias abertas e obrigatórias que ocorrem em pouco mais de duas semanas e definirão os candidatos às eleições legislativas de 14 de novembro. Nessa data, metade das cadeiras no Congresso e um terço delas no Senado serão renovadas. A votação é vista como um termômetro para as presidenciais.

No dia 13, um grupo de deputados do Juntos por el Cambio, principal frente de oposição da Argentina, apresentou um projeto de resolução na Câmara dos Deputados para promover um julgamento político contra o presidente por suposto mau desempenho e violação das funções de funcionário público.

Para que ocorra um impeachment, são necessários dois terços dos votos no Parlamento onde o partido no poder é a maioria. “O presidente foi logicamente imputado no caso de #OlivosGate. Mas seu caradurismo não tem limites. Faz-se passar por juiz e partidário e foi proferida uma sentença: 4 meios salários. Ele quer consertar tanta dor para os argentinos com 630 mil pesos (cerca de US $ 6.465). Miserável”, disse Mario Negri, chefe do bloco de deputados do Juntos pela Mudança, no Twitter.

Críticas da oposição

Por sua vez, Patricia Bullrich, chefe da Proposta Republicana (Pro), principal partido da oposição no país, escreveu em sua conta no Twitter: “Imagine se cada pessoa que comete um crime decide sua própria sentença. Presidente, você é advogado e professor de Direito Penal. Não é assim. Não é a pena que você decidir, mas a pena que lhe corresponder pelo crime que cometeu”.

Na quinta-feira, o promotor federal Ramiro González decidiu abrir uma investigação contra Fernández. Pouco antes de a acusação ser anunciada, o presidente se apresentou à Justiça e propôs, a título de reparação de um potencial dano, doar metade do seu salário por quatro meses consecutivos ao Instituto Malbrán de pesquisa bacteriológica. O presidente, professor de direito penal, disse que se sente tranquilo, porque não se configurou um crime, uma vez que não houve pessoas infectadas durante o jantar.

Fernández foi indiciado por violação da quarentena, de acordo com o artigo 205 do Código Criminal do país. Ele prevê pena de 6 meses a 2 anos de reclusão. O juiz Sebastián Casanello deve decidir agora se avança com a investigação ou aceita a oferta do presidente e encerra o processo judicial.

Uma denúncia inicial sobre o caso foi apresentada em 28 de julho por dois militantes da oposição ao governo do atual presidente, quando foi divulgado o registro de visitas à residência presidencial durante a rigorosa quarentena em vigor em 2020. A queixa foi ampliada após a divulgação, em 12 de agosto, das fotos do aniversário da primeira-dama.

As imagens mostram as pessoas, incluindo Fernández, comemorando o aniversário de Yáñez em 14 de julho de 2020, quando a Argentina estava sob um decreto presidencial com duras restrições, incluindo a proibição de reuniões sociais, sob ameaça de punição.

Uma semana depois, mais imagens foram divulgadas, mostrando o presidente e a primeira-dama sem máscaras e sem distanciamento social na festa, realizada em ambiente fechado. Após as fotos se tornarem públicas, o presidente argentino pediu desculpas e reconheceu que o evento "não deveria ter acontecido".

Pelo descumprimento da norma que havia sido imposta pelo próprio governo, o promotor acusou não só Fernández, como Yáñez e os nove amigos com quem eles estiveram na festa. /EFE e AFP

 

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