Violações de direitos humanos e crimes de guerra seguem impunes

Casos envolvem líderes tribais, ex-membros do Taleban e jihadistas, todos com cargos no governo de Karzai

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h02

Os últimos 40 anos de história do Afeganistão foram marcados por atrocidades cometidas contra a população civil em nome do comunismo, do islamismo e da guerra ao terror, mas nenhuma tentativa de punição dos responsáveis teve sucesso. O governo preferiu expurgar esse período da memória coletiva e retirou dos livros escolares menções aos episódios que provocaram a morte de centenas de milhares de pessoas.

Muitos dos responsáveis por atos de violência ainda estão vivos e ocupam posições no governo do presidente Hamid Karzai, que teceu uma rede de apoio entre líderes tribais, coronéis regionais, antigos guerrilheiros islâmicos e ex-membros do Taleban.

Em 2005, a Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão (CIDHA) concluiu a mais extensa investigação sobre os crimes de guerra cometidos entre 1978 e 2001, na qual identificou milhares de pessoas responsáveis por atrocidades contra a população civil. Até hoje, não obteve autorização para divulgar o documento nem o compromisso de que os acusados serão processados.

O assunto é um tabu no país, onde as feridas de três décadas e meia de guerra continuam abertas. A CIDHA e outras entidades de defesa dos direitos humanos pressionam para que o sucessor de Karzai investigue ou ao menos dê mais visibilidade à violência praticada nas quase quatro décadas de conflito vividas pelo país. "Falamos com todos os candidatos e apresentamos nossa preocupação em relação às investigações. Ao menos verbalmente, eles prometeram que iriam levá-las adiante. Vamos esperar e ver o que acontecerá", disse ao Estado Rufiullah Bidar, porta-voz da CIDHA.

Invadido pelos soviéticos em 1979, o Afeganistão foi catapultado ao centro da Guerra Fria e se transformou em um tabuleiro no qual EUA e Paquistão tentavam minar a influência de Moscou com o financiamento e treinamento de militantes islâmicos. O regime apoiado pelos soviéticos foi brutal e provocou a fuga de milhões de afegãos. Quase 10% da população de 31 milhões ainda vive fora do país.

Depois da queda do presidente comunista Mohamed Najibullah, em 1992, o Afeganistão voltou a mergulhar em uma guerra civil. Diferentes facções islâmicas se enfrentaram em um conflito que durou quatro anos e destruiu grande parte de Cabul.

Em meio ao caos, o Taleban surgiu em 1994 e, dois anos mais tarde, tomou o poder. Com sua versão extrema do islamismo, deu estabilidade e segurança aos afegãos, mas cobrou um preço elevado, na forma de supressão do espaço e escolhas individuais e brutal repressão aos que se desviavam do fundamentalismo religioso.

Atrocidades continuaram a ser cometidas após 2001, quando tropas internacionais invadiram o país em busca de Osama bin Laden. No mês passado, a Anistia Internacional divulgou relatório apontando dez incidentes com pelo menos 140 civis mortos por tropas americanas em circunstâncias "dúbias" - 50 das vítimas eram crianças. "Há uma chocante ausência de responsabilização de forças dos EUA pela morte de afegãos, incluindo civis, o que levanta preocupações sobre crimes de guerra", disse a autora do estudo, Joanne Mariner. / C.T.

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