Violência causa fuga de milhares de rohingya

O principal destino é Bangladesh, que tem impedido a entrada de refugiados alegando ser superpovoado e pobre

SITTWE, MIANMAR, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2013 | 02h06

A violência em Rakhine já levou centenas de milhares de rohingya a buscar rotas de fuga internacional. O principal destino dos refugiados é a cidade litorânea de Cox's Bazar, no vizinho Bangladesh. Para chegar lá, os rohingya se lançam em pequenas canoas superlotadas pelas águas da Baía de Bengala.

Caso sejam interceptados, os refugiados têm sua entrada negada no país e as embarcações são levadas de volta a águas internacionais. Há inúmeros casos de botes que passaram dias à deriva, com diversos rohingya morrendo desidratados ou por insolação.

As perspectivas para os que conseguem burlar a fronteira também não são promissoras. A ONU estima que haja 250 mil rohingya em Bangladesh. Somente cerca de 30 mil têm seu status de refugiado reconhecido pelas autoridades bengalis e recebem assistência humanitária em campos de refugiados.

A vasta maioria está ilegalmente no país, abrigada em acampamentos não autorizados. Desde outubro, para dissuadir a vinda de mais rohingya, Bangladesh tem bloqueado toda assistência internacional e proibido a movimentação dessas pessoas - contribuindo com o aumento de casos de desnutrição, prostituição infantil e trabalho escravo.

A ONU acusa Bangladesh de violar as leis internacionais ao impedir a entrada de refugiados, mas as autoridades locais dizem que o país é superpovoado e pobre demais para lidar com um problema de Mianmar.

Sabendo das dificuldades em Bangladesh, muitos rohingya têm tentado fugir para a Malásia. A empreitada envolve o pagamento de coiotes para cruzar a fronteira ou as águas tailandesas, mas, quando pegos, os rohingya são deportados a Mianmar. Estima-se que já exista mais rohingya vivendo no exterior do que os 800 mil que ainda permanecem em Mianmar.

Nos campos de refugiados que o Estado visitou, próximos a Sittwe, os rohingya são coagidos a não sair. Os locais são coordenados pelo governo de Mianmar, com o apoio do Acnur, a agência da ONU responsável por refugiados, além de organizações humanitárias internacionais. A pobreza é extrema. Em alguns dos campos há casebres simples de madeira, mas em vários acampamentos os rohingya vivem em pequenas tendas lotadas. Não há banheiros. Para não morrer de sede e poder cozinhar, os rohingya cavam fossos de onde extraem água barrenta, consumida sem purificação.

Segundo o Acnur, são necessários cerca de US$ 70 milhões para manter as atividades humanitárias básicas nos acampamentos até junho - e menos de um terço desse valor foi arrecadado por enquanto. Para analistas, o principal passo para solucionar o problema passa pela concessão de cidadania para os rohungya. Mas o presidente birmanês, Thein Sein, rejeita as pressões da ONU para alterar a lei sobre nacionalidade. Thein Sein declarou que a solução para a questão é colocar os rohingya em campos de refugiados controlados pela ONU ou enviá-los a qualquer país que esteja disposto a recebê-los. / S.B.

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