Violência cresce no Peru e Toledo cancela viagem

A intensificação dos distúrbios em várias cidades do sudeste peruano provocados pela privatização de duas empresas de eletricidade e uma greve parcial dos transportes públicos levaram o presidente Alejandro Toledo a cancelar uma viagem que o levaria à Nicarágua e aos EUA. Enquanto a secretaria de Imprensa da presidência anunciava, nesta quarta-feira, o cancelamento da viagem, a violência prosseguia no interior do país, e o transporte público ficou parcialmente paralisado devido a um protesto dos donos de empresas de ônibus que se opõem ao pagamento de um seguro por danos pessoais. Os distúrbios explodiram na sexta-feira em Arequipa após a privatização de duas compahias de eletricidade - a Egasa, no departamento (Estado) de Arequipa, e a Egesur, no de Tacna, na fronteira com o Chile -, apesar de uma ordem judicial para que não fossem leiloadas e uma promessa eleitoral de Toledo de que não o faria. Uma Frente Ampla Cívica em Arequipa, capital do departamento de mesmo nome e segunda mais importante cidade do país, convocou uma greve geral por tempo indeterminado em toda a região, que continuava nesta quarta-feira, exigindo a anulação do leilão. Em solidariedade com a medida em Arequipa, outro grupo em Tacna ordenou uma paralisação geral com marchas populares, que foram dissolvidas nesta quarta-feira pela polícia com gases lacrimogêneos. Em Moquegua, departamento localizado entre Arequipa e Tacna, realizava-se nesta quarta-feira uma greve geral de 24 horas, e grevistas bloquearam a Rodovia Pan-Americana com pedras, arbustos e pneus incendiados. Passageiros de ônibus foram forçados a uma longa caminhada até seu destino, segundo imagens transmitidas pela televisão. Os moradores do porto de Ilo, sob a jurisdição de Moquegua, iniciaram nesta quarta uma greve de 48 horas, e habitantes de Cuzco acataram uma greve de 24 horas e realizaram manifestações de rua. Ao mesmo tempo, aumentou de 18 para 26 o número de pessoas em greve de fome em apoio ao pedido da Frente de Arequipa para que seja anulado o leilão das geradoras de eletricidade Egasa e Egesur. A emissora Radioprogramas informou que grupos de manifestantes em Ilo bloquearam uma ferrovia, impedindo a passagem de dois trens que transportavam cobre. Informou-se que, devido às desordens, dezenas de turistas estão retidos na cidade de Desaguadero, na fronteira entre Peru e Bolívia. Os habitantes de Arequipa e Tacna temem que, a exemplo do que ocorreu no caso de privatizações anteriores, com o leilão das duas empresas haverá demissões e aumento das tarifas de eletricidade. Imagens da televisão mostraram que, enquanto isso, centenas de produtores de coca realizam uma marcha até Lima para pedir que o governo cesse a fumigação das áreas plantadas com produtos químicos que, segundo dizem, estão destruindo as plantações e causando danos à saúde.Os distúrbios desde a sexta-feira já deixaram pelo menos um morto, dezenas de feridos e vultosos danos. Na tentativa de frear ataques à propriedade pública e privada, o governo implantou em Arequipa o estado de emergência e o toque de recolher. A população respondeu com panelaços em diversas horas, reclamando a anulação destas medidas. Uma delegação governamental, tendo à frente o ex-arcebispo de Arequipa, monsenhor Fernando Ruíz, e outra presidida pelo prefeito dessa cidade, Juan Manuel Guillén, buscavam nesta quarta-feira - pelo segundo dia consecutivo - uma fórmula para restabelecer a normalidade no sudeste peruano.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.