Violência de Assad faz famílias mudarem de lado, diz brasileiro

Mineiro que vive há mais de 20 anos em Homs, a cidade mais castigada pelos últimos ataques, vê perda de apoio ao regime

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2012 | 03h03

"Façam alguma coisa para nos salvar." O apelo é do sírio-brasileiro Karim, que nasceu em Belo Horizonte e vive há mais de 20 anos em Homs, na Síria. Ele relatou ontem ao Estado por telefone o que chama de "inferno" em sua cidade desde o fim de semana. Temendo represálias, pediu que seu sobrenome seja mantido em sigilo. Segundo ele, muitas famílias mudaram de lado com a nova ofensiva do governo.

"Há poucas semanas, muita gente de fato apoiava Assad. Não porque gostavam dele. Mas porque o regime representava certa estabilidade. Agora, com filhos de amigos morrendo, não há mais como apoiar um assassino", disse o brasileiro, que tem um comércio na Síria. "É uma nova guerra. Basta olhar para fora para ver fumaça e bombas. A população está cada vez mais contra o governo", disse Karim. "O som das armas mudou. Dá para notar que são pesadas, mísseis, não mais apenas metralhadoras."

"O governo sírio busca todos que falem algo negativo sobre o regime. Ninguém mais se arrisca a ver seu nome ligado à oposição", disse o sírio-brasileiro.

Karim relata que há pelo menos cinco dias não deixa sua mulher e duas filhas saírem de casa. Ele mesmo apenas se arriscou a sair para buscar comida no sábado. "Logo faltará comida, sem contar o dinheiro. Já há cortes de luz e o telefone nem sempre funciona", disse. "Os bancos estão operando apenas em meio turno e muitos nem recebem mais clientes", disse. "Sorte que tinha um pouco de dinheiro guardado em casa", afirmou.

O brasileiro diz que a versão da TV síria é a de que a luta é contra terroristas e grupos financiados por estrangeiros. "Tive de ligar para um primo meu em Minas Gerais para perguntar o que estão falando da Síria", contou. "Se não temos nem como sair de casa, como é que vamos até Damasco, pegar um voo? O que terá de ocorrer é uma retirada organizada pelo governo do Brasil dos brasileiros que estão por aqui", disse.

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