Violência diminui na Hungria; premiê se mantém no cargo

A polícia usou gás lacrimogêneo contra os manifestantes que exigem a renúncia do primeiro-ministro, mas o caos que assolou a capital húngara aparentemente começa a diminuir após três noites de violência. Aproximadamente 100 manifestantes se reuniram na quinta-feira de manhã, na praça Kossuth, próxima ao parlamento, horas após 15 mil pessoas terem saído às ruas durante a noite. A praça ficou coberta por panfletos condenando o governo e chamando os húngaros para participar do protesto. O protesto de quarta-feira à noite foi principalmente pacífico. Mas a polícia, melhor equipada após confrontos anteriores que deixaram 100 policiais feridos, usaram gás lacrimogêneo para dispersar centenas de manifestantes que insultava m e desafiavam os policiais durante horas na madrugada de quinta-feira. O levante acabou por volta das três horas da madrugada.Quinze manifestantes ficaram feridos, inclusive dois, com sérios ferimentos provocados pelos projéteis de gás lacrimogêneo, segundo autoridades. Ainda assim, a última noite de levante foi bem menos violenta que os protestos e confrontos que deixaram centenas de feridos e causaram estragos avaliados em centenas de milhares de euros. Os protestos pedindo a renúncia do premiê, Ferenc Gyurcsany, começaram na segunda-feira após o vazamento de uma gravação na qual Gyurcsany afirma ter "mentido manhã, tarde e noite" sobre a economia do país. A fita foi gravada durante um encontro fechado em maio, semanas após o governo de Gyurcsany ser o primeiro a ganhar a reeleição no governo pós-comunista.Repercussões políticas Gyurcsany se manteve inabalável, insistindo que o seu governo pretende levar adiante as reformas econômicas. Na quinta-feira ele chamou os líderes parlamentares para o primeiro encontro com a oposição desde o início dos confrontos.Mas é improvável que a abertura amenize as tensões. Apenas o Fórum Democrático Húngaro, com 11 parlamentares, aceitou conversar. Os dois maiores grupos de oposição de centro-direita, que juntos detém 163 das 368 cadeiras do parlamento, disseram que não iriam comparecer. "Não faz sentido manter conversas com o governo", disse Peter Szijjarto, porta-voz do Fidesz, o maior partido de oposição. ``Ferenc Gyurcsany não é a solução, mas o problema." O líder do Fidesz Viktor Orban, que foi premiê entre 1998 e 2002, tem sido um dos principais críticos de Gyurcsany, e tem sido o líder das demandas pela renúncia de Gyurcsany ede seu gabinete. Orban propôs o estabelecimento de um governo temporário de "experts", incluindo economistas e outros profissionais, para colocar o país em ordem novamente. A recusa de Gyurcsany em renunciar após o vazamento da gravação causou uma onda de violência sem precedentes desde a revolução anti-soviética há 50 anos atrás. Durante alguns dias, a polícia entrou em confronto com milhares de manifestantes que tentavam atacar construções estratégicas ou simbólicas. Quase 200 pessoas foram detidas desde o início dos levantes, na terça-feira de madrugada, incluindo as 62 pessoas presas na quinta-feira, segundo a porta-voz da polícia de Budapeste, Eva Tafferner. Ela disse que alguns foram liberados após interrogatório, mas a maioria receberá acusações relativas à desordem pública e atos de violência contra a polícia.A mídia húngara também relatou demonstrações menores em outras seis cidades. O ministro do Interior havia dito anteriormente considerar o toque de recolher na capital, mas na quinta-feira o governo negou esses planos. "Não houve a consideração ou decisão sobre um toque de recolher", disse o porta-voz do governo. A violência abalou o país, considerado como um modelo de progresso após o colapso do comunismo na Europa oriental.O público ficou chocado com as admissões de Gyurcsany sobre a inaptidão do governo durante o primeiro mandato e com o cinismo contido na fita de 25 minutos amplamente divulgada pela mídia húngara. "Não fizemos nada durante quatro anos. Nada", diz Gyurcsany na gravação, feita durante conversa privada com os membros do parlamento do partido Socialista. "Mentimos durante o último ano e meio, dois".

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