''Violência é um sinal da crise do regime iraniano''

A violência institucional no Irã aumenta à medida que o regime instaurado pela Revolução Islâmica de 1979 se sente acuado. Na visão da escritora iraniana Azar Nafisi, o caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, é apenas o mais recente capítulo dessa história que dura 30 anos. "O uso da violência aumentou porque o regime enfrenta cisões internas. Está se desfazendo em pedaços", acredita a ex-professora da Universidade de Teerã, exilada em Washington. Ao passar por São Paulo para a Bienal Internacional do Livro, a autora de Lendo Lolita em Teerã e O Que Eu Não Contei, recebeu o Estado para uma entrevista.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Sendo mulher e muçulmana, como a sra. vê a pena de apedrejamento aplicada no Irã?

Em primeiro lugar, não gostaria de falar como muçulmana. Não é preciso ser muçulmana ou cristã para condenar um ato como esse. Essa é uma questão humanitária. Não digo humana porque, infelizmente, são humanos os que cometem atrocidades assim.

A sra. aprova a intervenção do Brasil?

Acho que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou de Sakineh para ter apoio dos brasileiros. Não pedimos que ele, ou nenhum outro, use a força contra o Irã. Não queremos uma guerra. No entanto, o presidente de um país democrático, que aboliu a pena de morte há mais de cem anos, como o Brasil, não pode se dizer amigo de um presidente que apedreja seus cidadãos até a morte.

A Revolução Islâmica teve apoio popular. O que deu errado?

O Brasil é uma democracia vibrante. E esse era o espírito dos iranianos no início da Revolução Islâmica. Estávamos esperançosos. As pessoas, porém, foram se frustrando e nos tornamos uma nação triste. No entanto, temos de assumir a nossa parcela de responsabilidade. É mais fácil culpar o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o regime, mas nós fomos cegos. Só nos importávamos em depor o xá (Reza Pahlevi) e retomar a liberdade. Ninguém se perguntou o que seria do Irã depois. Acreditávamos que, aos nos livrarmos de um regime tirano, a democracia estava garantida - essa era a promessa deles. E nós subestimamos os aiatolás.

O que tem de mudar no Irã, as leis, a religião ou o regime?

Você conhece um país por suas leis, me disse uma vez Shirin Ebadi (Nobel da Paz iraniana). Nossas leis não representam o povo iraniano e têm de mudar.

Como o Brasil pode ajudar?

Peço que os brasileiros conheçam o Irã pelos livros, poesia e pela música. Porque isso também é o Irã. Não acreditem que a visão de Ahmadinejad e do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, seja única, pois não reflete a verdade sobre os iranianos. Antes desse regime, o Irã teve ministras no governo. Não se deixem enganar pelos políticos atuais.

A forma como o Islã é retratado a incomoda?

Não se pode generalizar. Admiro a sua imprensa e os brasileiros, pois se mostram solidários a Sakineh e os jornais falam sobre o caso todo o tempo. É incrível ver um país tão distante preocupado com os iranianos. O que me preocupa é a mídia generalizar e simplificar algo tão complexo e buscar somente o sensacionalismo. Ahmadinejad, não importa o que digam, ganha a mídia mundial.

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