Violência ligada à droga cai em Juárez

Cidade símbolo da guerra entre cartéis no México registra o menor número de homicídios em 5 anos e vida começa a voltar ao normal

WILLIAM BOOTH, THE WASHINGTON POST, CIUDAD JUÁREZ, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2012 | 03h04

Quando a cidade mexicana de Ciudad Juárez estava no ranking das mais violentas do mundo, o necrotério transbordava da sala e os corpos se empilhavam até o teto, em geladeiras gigantescas que funcionavam a todo vapor. Os médicos legistas, com botas de plástico, realizavam dezenas de autópsias por dia, enquanto as famílias esperavam do lado de fora, em filas.

Em 2010, no auge da guerra entre dois cartéis da droga, houve pelo menos 3.622 homicídios em Juárez. Em vários meses, a cifra oficial passava de 300 mortos, segundo o jornal El Diario. Mas agora parece que a febre arrefeceu.

Em julho, houve "apenas" 48 homicídios: 33 por arma de fogo, 7 por espancamento, 6 por estrangulamento e 2 por arma branca. Desse total, as autoridades consideram que 40 estavam relacionados ao narcotráfico ou a rivalidades entre gangues. O governo mexicano atribui o declínio dos homicídios aos seus próprios esforços - com o envolvimento do Exército e da polícia, além da criação de escolas para manter os jovens fora do crime.

Os mexicanos, porém, suspeitam que há outra razão, mais palpável, para a queda da violência extrema: o traficante mais procurado do mundo, Joaquin "El Chapo" Guzmán, e seu cartel de Sinaloa conseguiram o controle total do narcotráfico local e das rotas do contrabando para o norte.

Desde o início, Juárez foi o campo de batalha na guerra à droga deflagrada pelo presidente Felipe Calderón, com o apoio dos EUA. Calderón convocou 8 mil soldados e policiais, e investiu milhões de dólares numa operação destinada a aumentar a segurança. Especialistas compararam a estratégia à adotada pelos EUA no Iraque.

Na Iniciativa de Mérida, no valor de US$ 1,6 bilhão, o governo americano financiou academias de polícia e o treinamento de oficiais para que aprendessem a "sobrevivência nas ruas". Os EUA forneceram microscópios ao laboratório forense, enviaram funcionários da prefeitura de Juárez para a Colômbia, a fim de aprender como Bogotá combatia a violência, ajudaram a criar uma linha telefônica para denúncias anônimas e financiaram programas para jovens em áreas de risco. Calderón diz que o número de homicídios está em queda em todo o México, mas em Estados como Tamaulipas, Guerrero e Veracruz a tendência é de alta pela disputa entre os cartéis.

Sem fantasmas. Juárez continua vulnerável. Ficou evidente que a violência começou a diminuir depois que os soldados e a polícia federal começaram a deixar a cidade. Agora, os habitantes rezam para que a paz relativa dure, enquanto milhares de famílias que fugiram para o Texas para escapar da violência avaliam se poderão voltar em segurança.

No ápice da guerra, quando a cidade industrial na fronteira sobre o Rio Grande parecia consumir-se numa mania homicida, a taxa média de crimes chegava a nove por dia. No mês passado, os homicídios caíram para 1,3 ao dia, a taxa mais baixa desde que a guerra entre os cartéis de Sinaloa e de Juárez eclodiu, em 2007.

"Hoje a situação mudou completamente", afirma o prefeito Hector Murguía. "Juárez não é mais uma cidade fantasma".

As famílias voltaram a comemorar os aniversários nos restaurantes. À noite, alguns clientes arriscam uma ida às cantinas do centro, outrora uma zona proibida ao escurecer. A recessão acabou. As montadoras, que pagam cerca de US$ 13 por dia, funcionam sem parar. Segundo a prefeitura, foram criados cerca de 20 mil empregos no último ano.

Para fazer frente à crise que levou Juárez à beira da falência, o governo federal construiu escolas nos bairros pobres onde antes não existia nenhuma, além de centros comunitários, playgrounds e clínicas. O ministro do Interior do México, Alejandro Poire, esteve recentemente na cidade para conferir os feitos de Calderón: uma redução da taxa de homicídios de 56%, em comparação ao mesmo período do ano passado, e 70% em 2010.

"Graças à cooperação entre os governos federal, estadual e municipal, e ao apoio do público, estamos reconstituindo o tecido social", disse Poire.

Os que criticam a estratégia governamental em Juárez destacam que o ex-governador do Estado, Chihuahua, está sendo investigado por supostos vínculos com o crime organizado.

Embora seja mostrada como uma batalha pelas lucrativas rotas de contrabando da droga, a polícia diz que a luta entre os cartéis de Sinaloa e Juárez diz menos respeito ao apetite voraz pela droga dos americanos e mais pelo controle de Juárez. "Do meu ponto de vista, a violência originou-se da venda e consumo de drogas aqui em Ciudad Juárez; foi isso que causou a crise maior", disse Cesar Peniche, o procurador-chefe.

Segundo estimativas, quando os cartéis deflagraram a guerra, havia milhares de pontos de distribuição da droga e estandes de tiro em Juárez. Como o tráfico para os EUA se tornou mais difícil, as máfias começaram a pagar as pessoas com o produto, o que pode ter contribuído para aumentar o consumo na cidade - onde uma dose de heroína é vendida por US$ 5, o menor preço da América do Norte.

Como define o procurador-geral, os cartéis lançaram seus exércitos para a tomada da cidade. No topo da hierarquia estavam os chefões, como Guzmán, que provavelmente jamais pôs o pé em Juárez. Os combatentes eram esquadrões de assalto de estilo paramilitar, que incluíam policiais, aposentados e da ativa.

Depois de milhares de mortes, a polícia afirma que o inimigo de Guzmán, o cartel de Juarez, agora é uma sombra do que era. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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