Youssef Badawi/Reuters
Youssef Badawi/Reuters

Violência mata 22 e crise síria se aprofunda

Damasco ignora ultimato da Liga Árabe e corre risco de sofrer mais sanções econômicas

BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2011 | 03h04

BEIRUTE - Confrontos entre forças do governo e opositores mataram ontem 22 pessoas na Síria, de acordo com o Comitê de Coordenação Local, que agrupa membros da oposição. A crise se aprofundou ainda mais porque o governo sírio ignorou o ultimato dado pela Liga Árabe, no sábado. Com isso, Damasco corre o risco de enfrentar novas sanções.

O governo sírio, no entanto, informou ontem que ainda negocia com a Liga Árabe e não decidiu se aceita ou não o envio de observadores ao país. No sábado, um comitê ministerial árabe tinha anunciado que a Síria tinha até ontem para aceitar uma missão internacional e evitar novas sanções.

"Damasco pediu novos esclarecimentos sobre o protocolo de acordo proposto", afirmou uma autoridade do Catar, que pediu anonimato. Um analista sírio avaliou que havia "poucas chances" de que o regime aceite o pedido da Liga Árabe.

Sanções. Depois das sanções ocidentais para conter a repressão, que segundo a ONU deixou 4 mil mortos desde março, a Liga Árabe aumentou o isolamento do regime de Assad, adotando sanções que começaram a ter efeito no dia 27.

Entre as principais medidas estão o congelamento das transações comerciais com o governo sírio e de suas contas bancárias em países árabes. No sábado, a reunião do comitê ministerial árabe determinou o estabelecimento de uma lista de 19 personalidades sírias que seriam proibidas de viajar para países árabes e cujos ativos seriam congelados.

A lista inclui os principais chefes dos serviços de segurança, assim como Maher Assad, irmão do presidente, Rami Makhluf, primo de Assad, e os ministros da Defesa e do Interior. A reunião antecipou também a proibição de toda a venda de armas de países árabes e a redução à metade dos voos para Síria a partir deste mês.

Prisão. Em comunicado emitido ontem, o Centro de Mídia e Liberdade de Expressão afirmou que Razan Ghazzawi, uma conhecida blogueira síria, foi presa pela polícia na fronteira com a Jordânia. Ela representaria a organização em uma conferência em Amã.

O Comitê de Coordenação Local confirmou a prisão de Ghazzawi. Ativista de direitos humanos, ela vinha documentado as violações e as prisões de manifestantes na Síria desde o início da revolta contra Assad, em março. Ghazzawi era uma das poucas ativistas que assinava críticas ao governo usando o próprio nome.

Reação. Ontem, o governo americano voltou a criticar o regime sírio. Em visita à Jordânia, o subsecretário de Estado, Jeffrey Feltman, acusou Assad de estimular um confronto sectário no país entre os alauitas - a seita do Islã derivada do xiismo à qual pertence o ditador - e os sunitas, que formam a maioria da população.

"Assad aprofunda o ódio sectário. Ele parece disposto a cumprir sua própria profecia: a Síria caminha rumo ao caos e à guerra civil", disse o diplomata a jornalistas em Amã. "Ele está jogando a comunidade (alauita) contra os manifestantes, que fazem parte de outra comunidade (sunitas). Por isso, a tensão sectária é culpa de Assad."

Ainda de acordo com o diplomata, a melhor maneira de evitar uma guerra civil no país é tirar Assad do poder. No entanto, ele descartou uma intervenção na Síria e disse que as opções pacíficas ainda não estão esgotadas. "Ninguém quer ver qualquer tipo de intervenção militar na Síria", acrescentou. "Precisamos examinar as ferramentas disponíveis para mostrar a Assad que ele está errado."

Os EUA, a Grã-Bretanha e a França tentam impor sanções à Síria no Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas têm enfrentado a oposição de China e Rússia, que já vetaram uma resolução que condenava o regime de Assad. Os dois países são aliados da Síria e possuem interesses estratégicos e comerciais no país. / AP e REUTERS

Pelo menos uma dúzia de integrantes da polícia secreta síria desertaram de uma unidade de inteligência em uma província rebelde perto da Turquia. Foi a primeira grande deserção no órgão de segurança que lidera a violenta repressão aos manifestantes no país. A informação foi divulgada ontem por ativistas sírios.

Os desertores aproveitaram um tiroteio para fugir do complexo de Inteligência da Força Aérea no centro de Idlib, a 280 quilômetros de Damasco. Dez pessoas, em ambos os lados, foram mortas ou feridas, de acordo com os ativistas.

Um dissidente e morador da cidade, que se identificou apenas como Alaa, afirmou que outros desertores do Exército, que atuavam na região vizinha de Jabal al-Zawiya, foram vistos perto do complexo militar e ajudaram na fuga dos membros da polícia secreta, no que parecia ser uma operação coordenada dos opositores.

"Veículos blindados de um quartel do Exército fora de Idlib foram chamados para ajudar a defender a unidade. Ouvi o som de AK-47 e de metralhadoras até o amanhecer", declarou o dissidente. Fontes da oposição estimam que o número de desertores das forças de segurança esteja crescendo, principalmente entre os recrutas do Exército.

/ REUTERS

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