Violência na Síria mata mais 6 crianças

Em Homs, cidade rebelde retomada por Assad, meninos foram mortos ou desfigurados

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, ANTAKYA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2012 | 03h06

O massacre anteontem de ao menos 16 pessoas, incluindo 6 crianças que tiveram seus rostos desfigurados, em Homs, no centro-oeste da Síria, despertou preocupações de que o regime sírio possa partir para punições coletivas contra moradores de áreas antes ocupadas pelos rebeldes.

Segundo relatos de moradores, forças de segurança do ditador Bashar Assad, com alguns membros vestidos como civis, teriam matado nove famílias e incendiado suas casas. O regime sírio, porém, acusa "grupos terroristas" - que diz combater em Homs - pelas mortes. O ativista Wael al-Homsi disse ao New York Times ter contado "dezenas" de corpos, incluindo mulheres e crianças, no bairro de Karm el-Zeiton.

Ele disse ter ajudado a remover os cadáveres para zonas sob controle de forças da oposição. Ativistas afirmaram ainda que um carro-bomba explodiu em Deraa, no sul da Síria, onde a rebelião começou em 15 de março do ano passado. A explosão ocorreu perto de uma escola para meninas, mas aparentemente o alvo era um veículo militar. As informações são desencontradas. Um ativista disse à agência Reuters que 1 aluna morreu e 25 ficaram feridas. Já o Observatório Sírio de Direitos Humanos, com base em Londres, declarou que três agentes de Damasco que estavam no veículo militar foram mortos. Outro ativista afirmou que ninguém morreu.

Depois da tomada de Homs, há dez dias, milicianos chamados de "shabiha" ("fantasmas", em árabe), força clandestina que atua em favor do regime, foram reconhecidos pelos moradores ao entrar nas casas durante a noite e cometer atrocidades.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram crianças com os rostos mutilados, aparentemente por instrumentos cortantes, assim como corpos de adultos cobertos por lençóis. De acordo com o observatório, foram ao menos 16 mortos. Já segundo os Comitês de Coordenação Local, 45 pessoas morreram.

Ataques. Os combates continuam perto da cidade de Idlib, foco rebelde no noroeste da Síria, ocupada desde o fim de semana pelas forças leais ao presidente Assad. O Exército Livre da Síria (ELS) retirou-se da cidade, mas têm ocorrido confrontos na província ao redor, de mesmo nome.

Um oposicionista sírio que cruzou ontem à tarde a fronteira para a Turquia contou ao Estado que os combatentes rebeldes destruíram dois tanques na noite de domingo. "Mas para isso morreram sete combatentes do ELS", relatou. "Um tanque que estava mais distante disparou contra eles." De acordo com o oposicionista, os combatentes dispararam foguetes portáteis, conhecidos pela sigla RPG, contra os tanques. "De cada cinco RPGs, um funciona e os outros quatro falham", queixou-se. "Se todos funcionassem, teríamos destruído todos os tanques deles." O ativista explicou que esses RPGs em mau estado vêm do Iraque. "Os do Líbano são melhores, mas está quase impossível agora passar com eles pela fronteira."

O oposicionista contou ainda que pilotos estão presos em seus tanques, com as portas trancadas por fora, para evitar que eles desertem.

O ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan disse ontem na Turquia que a comunidade internacional precisa pressionar a Síria a pôr fim à matança. "Há relatos de atrocidades e abusos graves e terríveis", disse Annan, enviado da ONU e da Liga Árabe à Síria.

"A matança de civis precisa parar. O mundo tem de mandar uma mensagem clara e unida sobre isso", completou Annan, após se reunir com o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. No sábado e no domingo, o diplomata esteve em Damasco, onde ouviu de Assad que uma saída política não será possível enquanto "grupos terroristas armados" agirem na Síria.

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