Cláudia Trevisan/ESTADÃO
Cláudia Trevisan/ESTADÃO

Violência no Brasil embasa pedidos de asilo aos EUA

De outubro a março, número de solicitações feitas por cidadãos que sofreram ameaças já chegou quase à metade do total do ano anterior

Cláudia Trevisan, enviada especial / Miami, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 05h00

MIAMI - As ameaças começaram em abril do ano passado, mas a gota d’água veio no fim do mês, quando José recebeu fotos das filhas gêmeas indo para a escola e dele próprio chegando em casa após o trabalho. O recado era claro: sabemos onde vocês vivem e, se quisermos, podemos matá-los.

Funcionário de carreira do governo federal, José trabalhava no setor de patrimônio da União em uma capital do Centro-Oeste. Pouco antes das ameaças, ele havia identificado irregularidades em um loteamento de um programa destinado à população da baixa renda. 

Entre os problemas estavam a distribuição de terrenos de 800 metros quadrados, acima do limite previsto, o favorecimento de famílias de classe média e a entrega de lotes a policiais militares, cujos salários eram superiores ao teto do programa.

Abril avançava e José (nome fictício) passou a temer cada vez mais pela vida das filhas. A mulher, Helena, estava nos EUA com a filha adolescente do casal, para acompanhar a cirurgia de uma tia. As ameaças se intensificaram depois que ele fez um boletim de ocorrência. No dia seguinte, recebeu um e-mail que dizia que a polícia não iria ajudá-lo.

Desesperado, ele tomou uma decisão radical: abandonar tudo, ir para os EUA e pedir asilo para a família. A viagem de Helena e da filha mais velha se transformou em um evento mergulhado em incertezas e sem data para acabar. Um mês depois da chegada de José a Miami, seu pai sofreu um sequestro relâmpago em Brasília por homens que perguntaram por seu paradeiro. 

O casal iniciou seu processo em agosto, sob o argumento de que tem temor justificado de retornar ao Brasil. Há poucos dias, ambos receberam autorização para trabalhar nos EUA. Agora, aguardam a decisão da Justiça sobre o seu futuro.

José ganhava R$ 18 mil no Brasil. Helena tinha uma sólida clientela em seu consultório de psicologia. “Com quase 50 anos, eu me sinto como se tivesse 17, tendo de começar tudo de novo em um país em que sou uma semianalfabeta funcional”, disse Helena. Sem renda para cobrir as despesas, a família colocou a casa no Brasil à venda e queimou sua poupança. “Eu não volto para o Brasil. Vou expor minhas filhas e não sei o que pode acontecer”, afirmou José. 

Os dois integram o crescente número de brasileiros que pede asilo nos EUA, a maioria com poucas chances de obter o benefício. De outubro a março, foram 564 solicitações, mais da metade das 899 registradas em todo o ano fiscal anterior. Estatísticas oficiais mostram que há 2.211 requerimentos de asilo de brasileiros em análise.

Homossexual, Irene foi torturada, violada e perseguida por um policial militar da cidade de 6 mil habitantes onde vivia. Quando ele a espancou, a estuprou pela segunda vez e continuou a persegui-la nas semanas seguintes, ela fugiu para os EUA. 

Depois de ter seu pedido de visto negado cinco vezes, ela cruzou a fronteira pelo México de maneira ilegal. Detida após três dias no deserto, ouviu a pergunta que todos os agentes fazem: você tem medo justificável de voltar a seu país? 

Irene respondeu sim, mas foram necessários dias de consultas com um psicólogo para que ela fosse capaz de contar sua história. Na entrevista ao Estado, ela tremia e chorava ao lembrar da violência que sofreu. Além do trauma, ela carregará sequelas: sua audição ficou comprometida, porque o policial derramou óleo quente em um de seus ouvidos e seu braço esquerdo tem problemas de movimento em razão das fraturas que sofreu.

“Prefiro morrer a voltar ao Brasil”, disse Irene, que estudou até o ensino médio e não fala inglês nem espanhol. Nos próximos dias, ela deverá receber a autorização para trabalhar. “Meu sonho é abrir uma empresa de limpeza e poder ajudar minha mãe no Brasil”, afirmou.

Para entender

A legislação sobre solicitação de asilo nos EUA define que os pedidos podem ser feitos por quem sofra ou possa vir a sofrer, em seu país, perseguição por motivos de religião, raça, nacionalidade, opinião política ou pertencimento a um grupo social. Não há previsão para temor de violência ou crimes de natureza comum. 

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