Violência no México leva imigrantes aos EUA

Aumentam pedidos de asilo político no país pela perseguição do governo e do tráfico

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL/ EL PASO, EUA, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h06

O dilema sobre imigração ilegal aos EUA deu lugar a outro deslocamento humano ainda mais sério vindo do México - os pedidos de asilo político relacionados com a explosão da violência ao Sul do Rio Grande desde 2008. No ano passado, a Justiça americana recebeu 3.231 solicitações de asilo e, em 2009, outras 3.335. A concessão desse status, entretanto, tem saído a conta-gotas.

Nesses dois anos, apenas 334 pedidos - 5% do total - foram aceitos pelos EUA, cada vez mais desafiado em sua estratégia de apoio ao México no combate ao narcotráfico.

El Paso, na fronteira do Texas com o México, assimila a grande maioria do êxodo de mexicanos castigados pela violência e pela negligência das autoridades de segurança. Sempre foi uma cidade de asilados políticos vindos do México, desde antes de Porfírio Díaz, que foi presidente do país entre 1876 e 1911, mover-se também para o outro lado da fronteira. A cidade, interrompida pelas cercas levantadas pelos EUA e pelo Rio Grande, continua com o nome de Ciudad Juarez, no Estado mexicano de Chihuahua. Trata-se de uma das áreas urbanas mais violentas do mundo.

Depois de décadas de pausa, a cidade americana voltou a receber uma nova onda de imigrados por razões políticas. Em Chihuahua, 21 ativistas de direitos humanos foram assassinados desde 2008 e outros, aprisionados.

Segundo Carlos Spektor, advogado defensor dos autoexilados, a maior parte dos pedidos de asilo é negada sob o argumento de não atender aos cinco pré-requisitos da legislação americana. Ele associa a onda de violência em Ciudad Juarez à chegada do Exército mexicano à região, em 2008, para conduzir a Operação Chihuahua contra o narcotráfico. Diferenças políticas locais de décadas foram envolvidas nos combates à criminalidade, e abusos dos militares foram registrados. "O governo valeu-se da vantagem da presença do Exército para atacar seus inimigos políticos", afirmou.

O advogado coleciona casos tão cruéis como os recorrentes esquartejamentos de vítimas do narcotráfico em Ciudad Juarez. Emílio Gutierrez, dono de um pequeno jornal, ficou preso sete meses, em 2008, por causa de suas reportagens sobre os abusos do Exército, escritas três anos antes. Só deixou a prisão depois de uma campanha internacional e hoje vende burritos em Las Cruzes, nos EUA, enquanto espera sair o seu asilo político.

Saúl Reyes, de 30 anos, está na mesma situação de espera de Gutiérrez. É um dos últimos sobreviventes de sua família de políticos de esquerda de Guadalupe, a 45 quilômetros de Ciudad Juárez. Cinco irmãos e a mãe, Josefina, foram assassinados por organizarem protestos públicos para pedir a devolução dos corpos de seus parentes.

Nas mãos de Spektor está também o pedido de asilo de Marisol Valles García, ex-chefe da polícia de Praxedes G. Guerrero, que deixou o país ao ser ameaçada pelo narcotráfico.

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