Violência nos EUA

Guardados o contexto e as proporções, o grau de fascínio e horror se equiparam. De um lado, aguarda-se o veredicto para os protagonistas do que talvez tenha sido o mais espetacular assalto à vida democrática já praticado no Brasil. Do outro, os holofotes recaem mais uma vez em cima de um ator solitário e o tamanho da fossa da sua alma endemoniada.

MAC MARGOLIS É CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, COLUNISTA DO ESTADO, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h02

De insegurança a insegurança, desenha-se o retrato falado do flagelo de cada povo. Nos EUA, ainda ressoa a sessão de meia-noite do último filme do Batman. O Cavaleiro das Trevas ressurge em um rapaz de classe media, ex-candidato a doutor em neurociência. Foram quatro armas, 6 mil balas, 12 mortos e uma convulsão nacional.

A todos espanta, além da óbvia carnificina e da malevolência do ato, a facilidade com que um desequilibrado ensandecido adquiriu, portou armas potentes e executou seu plano, no país da Segurança Interna, que revista passageiros em aeroportos com rigor prisional e onde todo cidadão é convocado a dedurar o próximo em caso de "comportamento suspeito".

A maioria dos comentaristas, compreensivelmente, concentrou fogo no descontrole armamentista dos EUA. Outros não hesitam em culpar a cultura de apologia à violência, irradiada dos jogos de computador ao Multiplex. Destaque para Peter Bogdanovich, célebre diretor de cinema, que em recente artigo conclamou seus pares para que parassem de encher os cinemas de fantasias violentas e vazias.

Os argumentos têm fundamento. Muito se falou, e não é preciso repetir, como é estupidamente fácil comprar uma arma pessoal por vias legais. No kit de James Holmes, o atirador do Colorado, entre outras peças, havia um fuzil AR-15 com tambor de cem balas, o preferido dos traficantes cariocas. Nos EUA, só falta colocar granadas nas máquinas de vendas automáticas, ao lado de barras de cereais e Coca-Cola Zero.

Da mesma forma, o cinema atual é um banquete para portadores de transtornos e criminosos seriais imitadores. Entre as suas revelações, o assassino do Colorado contou à Justiça que assistiu mais de uma centena de vezes ao trailer do filme The Suffocator of Sins ("O sufocador de pecados", em tradução livre), versão de quinta categoria ainda mais violenta da saga de Batman, que estreia logo mais nos cinemas.

Com cabelos pintados de laranja, um arsenal de videogame e um plano de filme trash, James Holmes é um personagem que faria corar um inquilino de Bangu 1. No entanto, tentar extrair de seu prontuário ou menu de entretenimento lições para a segurança coletiva pode se comprovar tão urgente quanto difícil.

Culpa da violência americana? Pouco provável. A taxa de homicídio nos EUA, em queda quase interrupta desde 1947, nunca foi tão baixa. Na Grã-Bretanha também, apesar da recessão severa.

Falta de espírito solidário? Será a frieza e o individualismo dos americanos uma das razões para que tantos Holmes, solitários e desajustados, prosperam na terra do Mickey Mouse? Mas se a cultura dos EUA é tão desagregadora, porque não há mais assassinos em massa?

O problema é tomar Holmes, um doente evidente, como métrica de uma sociedade como um todo. E se solidariedade fosse a referência, o que dizer da Venezuela, país latino e tropical, onde a família e os vizinhos cumprem um papel que substitui as frágeis redes de proteção social?

Junho foi o mais violento mês nos anais do país, com 511 cadáveres em apenas um necrotério de Caracas. Uma das vítimas foi o diretor do Observatório Venezuelano de Segurança, do Ministério da Justiça, que teve seu celular roubado e foi apunhalado, para depois ter seu tratamento recusado na porta de um pronto socorro de Caracas. Viva a solidariedade bolivariana.

De fato, nunca os americanos estiveram tão seguros, apesar de serem o povo mais armado do planeta, com uma arma em quatro de cada dez domicílios. Por mais que se debrucem sobre os dados, estudiosos americanos penam para explicar o que converte um inconformado como Holmes em assassino e, principalmente, se esforçam para descobrir como prevenir esse tipo de barbárie cinematográfica. Embora a Justiça possa até ser feita no tribunal, resta uma dúvida: saber se os crimes cessarão ali ou terão uma reprise, tanto nos EUA como no Brasil.

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